quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 4 - os preparativos pré-quimio

 08.06.2022

E-mail escrito para a amiga M.

Oi, M.! Tudo bem?
Hoje não foi um dia muito fácil, e isso que nem começou a fase mais brava...

Foi dia de conhecer onde vou fazer a químio e saber de todos os efeitos colaterais. É meio assustador, mas agora já fui jantar num lugar que gosto muito e já estou um pouco mais relaxada. Eles precisam informar tudo que pode dar reação e quais são as reações. Não é a melhor coisa a se ouvir, mas tem que ouvir para ficar alerta caso ocorram mesmo os sintomas.

O lado bom de tudo é que não preciso fazer praticamente nada, além de submeter meu corpo a tantas consultas, exames de sangue e outros tantos. O pessoal da clínica da Universidade de Heidelberg cuida de tudo. Agenda todas as consultas, prepara todos os documentos, me alerta sobre tudo que tenho à disposição (acompanhamento psicológico, ajuda para resolver papeladas de dispensa do trabalho se precisar, acompanhamento no dia da químio, pois ainda não pode ter acompanhando externo por causa da pandemia).

Só sei que nas últimas semanas virei objeto de pesquisa de três grupos de estudos. Um sobre o câncer de mama em si, outro sobre esporte e câncer e agora um sobre um aplicativo que oferecem para as pacientes (com todos os horários das consultas, meus exames, meus documentos etc.). Enquanto eu tiver forças, vou cooperando. O do esporte vai me fazer ir à academia (do centro de tratamento) duas vezes por semana e uma vez fazer exercícios em casa... Nunca tive uma agenda tão cheia desde que moro aqui.

T. pegou covid dos sobrinhos durante nossas férias em família. Meu anjo da guarda foi muito competente. Não sei como não peguei, pois além do contato com as crianças, ele ficou aqui em casa até praticamente o exame dar positivo. Demos muito mole, mas felizmente eu estava com alguma proteção que me livrou dessa. Daqui pra frente, o sistema imunológico não poderá mais ser colocado assim à prova (mesmo que sem querer).

Duas colegas de trabalho estão meio que acompanhando de perto. Falei pra outras três, com reações diversas. Uma que é durona e esteve doente em 2020 por muitos meses ficou com os olhos mareados. É minha vizinha de porte e disse para eu me concentrar no que importa, ou seja, em mim. Uma outra, que fazia uns dois anos mal falava comigo (porque eu topei fazer uma tarefa para meu chefe em 2020 e ela ficou puta, pois é contra tudo que ele faz, e achou que eu não deveria apoia-lo em nada), mas que está no conselho de trabalhadores comigo e queria saber por que eu não iria me candidatar novamente nas próximas eleições, ficou perplexa quando falei. Na hora, não teve muita reação, me fez algumas perguntas. Uns dias depois voltou à minha sala, para saber como tinha sido a viagem a Montpellier e me dizer que se ela pudesse ajudar em algo, de alguma forma, era para que falar. E meu chefe continua com a mistura de apoio e de sem noçãozisse...

Hoje a médica recomendou que eu me afaste do trabalho, pelo menos nas primeiras semanas, até ver como meu corpo vai reagir. Acho que vou fazer isso. Assim também poderei talvez ir para Baden-Baden, o que ainda estou pensando, pois todos meus médicos, hospital etc. estão aqui em Heidelberg.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 3 - minha rotina nas sessões de quimioterapia

Escrevo este post no dia da minha penúltima sessão de químio. 

Até agora, não posso reclamar, as sessões foram sempre tranquilas. 

Eu explico um pouco nas anotações abaixo, mas vou descrever um pouco como foram. Vai que alguém precisando saber um pouco mais chega até aqui. :-) 

A minha quimioterapia foi dividida em duas fases. 

A primeira teve duração de 12 semanas. Foram quatro ciclos, com aplicações no dia 1, dia 8 e dia 15. 

No dia 1, eu ía ao NCT para receber toda a medicação: Placitaxel, carboplatin e prembolizumb mais uns remédios contra enjoo e alergia, que me davam um sono danado. A rotina no dia da quimio sempre era: chegar ao NCT; mostrar o certificado de vacinação contra covid; ir à secretaria do setor ginecológico para se registrar; fazer um teste de covid; esperar 20 minutos; se negativo, voltar à secretaria e pegar minha pasta com todos os detalhes do meu tratamento; ir à seção onde é realizada a químio e entregar a pasta; esperar. 

A espera foi sempre muito variada, de 5 minutos a uma hora. A enfermeira chefe do dia nos informa em qual setor da enfermaria eu receberei o tratamento. O setor é composto normalmente por 5 cadeiras com certa distância uma da outra. A enfermeira responsável pelo setor já prepara o Port para receber a medicação e a paciente fica aguardando ser chamada para a conversa com o médico. 

Nesse meio tempo, a enfermeira ou uma senhora que faz trabalho voluntário vem perguntar se queremos chá, café, uma coca-cola :-) e um biscoito. Também é possível pedir uma coberta e um travesseiro. As enfermeiras também aproveitam esse momento para perguntar como a paciente está e dar dicar sobre como evitar ou diminuir os efeitos colaterais. Toda semana, caio em um setor diferente, mas as enfermeiras do NCT são sempre muito atenciosas.

O tempo da espera pelo médico pode variar muito. Hoje, por exemplo, esperei três horas (!), mas estava bem instalada, então nem senti. A consulta é feita em uma sala separada, mas já presenciei algumas vezes a conversa de médicos com outras pacientes ali mesmo. Comigo aconteceu somente uma vez. Prefiro ir para um lugar mais reservado. 

O médico tem uma rotina de perguntas: se está tudo bem, como está se sentindo, se sente dores nos dedos, se teve febre. Até mais ou menos a semana 8, minha resposta era sempre: estou me sentindo maravilhosa, numa tradução tosca do que falo em alemão. :-) Somente a partir dos dois meses de tratamento, comecei a me sentir mais cansada. O médico analisa então os resultado do exame de sangue feito sempre no dia anterior. A quimioterapia ataca células que se multiplicam de forma rápida, como as do sangue, dos cabelos, da saliva e outros líquidos do corpo. Por isso, o exame de sangue mostra bem se o tratamento está surtindo efeito ou não. 

Liberada pela médica, vou com minha pasta marcar a próxima químio na semana seguinte. No caminho, aproveito para pegar algo na cafeteria com meu vale de 6 euros - toda vez, recebo um deles. Na volta ao setor da enfermaria, finalmente começa a aplicação dos remédios. Primeiro um comprimido contra enjoo. Depois, os medicamentos contra alergia e enjoo. Aí tinha uma pausa de meia hora. Finalmente começava a aplicação. Eu nunca fiquei menos do que quatro horas no NCT. Numa das vezes em que a espera foi surreal, eu fui a última a sair da clínica. Já estava tudo escuro, só eu e a enfermeira.

Nas primeiras duas semanas, o T. me levou e buscou. Depois, como eu me sentia bem, acabamos optando por eu ir e voltar a de ônibus, pois fica a clínica fica a somente 12 minutos de casa. Hoje até voltei caminhando. Algumas colegas de químio vão de táxi, pois moram em outras cidades. O plano de saúde cobre o transporte, mas achei que dava mais trabalho providenciar sempre um táxi do que caminhar até a parada de ônibus.

Bom, encerrada medicação, é feita a coleta de sangue para uma pesquisa da qual faço parte e depois estou liberada. Outra hora conto como funciona com o Port, o catéter que foi implantado para poupar as veias. 

Nos dias 8 e 15, recebo somente uma medicação, mas os procedimentos são iguais. Só a duração da estadia na clínica é mais curta.

Na semana seguinte, recomeça tudo de novo. Até fechar quatro ciclos. 


"30.05.2022

Consulta e apresentação do tratamento


Nesta consulta com uma médica do NCT recebi todas as informações sobre meu tratamento: primeiro, quimioterapia e depois, cirurgia. Quimioterapia por 20 semanas, em dois ciclos. No primeiro, quatro vezes um coquetel de medicamentos a cada 22 dias mais a aplicação de um dos medicamentos semanalmente. O segundo ciclo com mais 4 vezes outro coquetel de medicamentos a cada 15 dias. Passei a chamar os dias com aplicação do coquetel de quimioterapia completa e os dias com apenas um de quimioterapia compacta."

Diário do câncer de mama 2

Nas primeiras semanas depois de receber o dignóstico, fiz umas anotações, como se fosse num diário, para que eu depois em lembrasse do processo todo. Acho que escrever me acalma e ajuda a organizar as ideias, por isso sempre fiz diários minha vida toda e também por isso tenho esse espaço aqui ainda ativo. Passados alguns meses e quase chegando ao fim da quimioterapia, leio sobre meus primeiros medos e vejo que tive um período de quimioterapia muito tranquilo, pelo menos até agora. 

"22.05.2022


Preferi não fazer buscas na internet para não enlouquecer, mas sei que terei que passar por quimioterapia e uma cirurgia bem difícil. Na minha imaginação, toda vez que passasse um período complicado buscaria abrigo em Baden-Baden. Após uma conversa que não era exatamente sobre isso, dei-me conta de que o caminho é individual. Terei apoio, mas tudo que tiver que passar, passarei sozinha. É duro pensar assim, mas o melhor é não criar expectativas, pois ninguém sabe como agir em situações como essas."


"25.05.2022

Ganhei um chocolate da colega que trabalha na sala ao lado. Um agrado espontâneo sempre faz bem.

Observo que evito tocar no tumor, coisa que antes do diagnóstico não ocorria. É como se fosse um medo de que “se quebrasse”, se rompesse e espalhasse pelo resto do corpo, o que é no momento o meu maior temor. Apesar de o exame ter mostrado que isso não ocorreu, o medo é maior.

Escrito no App Pink: O maior desafio talvez seja lidar com o medo dos efeitos colaterais. No momento, eu não tenho exatamente medo de morrer, não mais como nos primeiros dias. Desde que soube que o câncer ainda está localizado e não houve metástase, senti forças para me manter mais positiva. Meu maior medo atualmente é sofrer muito durante as sessões de quimioterapia."


"26.05.2022

Havíamos chegado fazia pouco tempo ao destino de nossas férias em família, quando recebi uma mensagem da minha ginecologista de que havia conseguido antecipar minha consulta para o dia seguinte. Estávamos a duas horas de carro. Olhamos trens, alugueis de carros, conversamos com os pais e eles ofereceram o carro deles para que voltássemos a Heidelberg para a consulta. Saímos cedinho e às 10h estávamos na clínica. Fiz uma mamografia (finalmente!), outro ultrassom longo. Também fiquei sabendo que o exame dos ossos havia tido um bom resultado, ou seja, sem metástase dos ossos.

A médica conseguiu marcar para a segunda seguinte a apresentação do meu tratamento no NCT. Voltamos para Günzburg felizes por finalmente o tratamento estar mais perto. Ainda fomos no parque da Legoland depois da viagem, onde encontramos a família."

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Surpresas nem sempre são boas... (Diário do câncer de mama 1)

A vida nos surpreende de um jeito às vezes. 

Meu 2022 estava indo bem, já tinha feito algumas viagens, tinha outras planejadas, iria receber visitas do Brasil pelo menos duas vezes. Estava cheia de planos, marquei minhas férias para o ano todo já em março, inclusive uma viagem ao Brasil em outubro para o casamento de uma prima. 

E aí, de repente, a notícia de um câncer de mama mudou todos os planos. 

Eu recebi o diagnóstico no dia 12 de maio. Na semana anterior, eu havia ido à ginecologista, pois um cisto na mama direita estava me incomodando. Eu estava bem despreocupada, pois tais cistos me acompanham há mais de 10 anos. Ela tentou fazer a punção e não saiu nada. Pediu para voltar dois dias depois para coleta de material para uma biopsia. 

"12.05.2022

 Amanheceu tudo bem no dia 12 de maio. Uma das bolsas da bike estava preparada com roupas para um fim de semana prolongado em Baden-Baden. A outra, arrumaria mais tarde ao voltar do trabalho. Estávamos planejando passear de bicicleta, pois o tempo prometia ser bom. 

Às 10h59 o telefone tocou. “O resultado da biopsia saiu. Venha, por favor, ao consultório. A senhora tem alguém para lhe acompanhar?”

Ao ouvir isso, eu já sabia. Levantei-me da cadeira, fui até a estante, apoie a mão e soltei um soluço e as lágrimas desceram.

Em seguida, enviei uma mensagem para o T. dizendo o que havia se passado e que estava com a cabeça meio desnorteada. 

“Estou indo”, ele escreveu. 

“Não adianta, a consulta já é agora, daqui a pouco.” 

Ele chegou alguns minutos antes de eu ser chamada ao consultório. 

Sem rodeios, veio a frase que eu já sabia que ouviria: “A senhora está com câncer de mama”.

Diagnóstico recebido, indicação dos exames a serem feitos até a data longínqua da próxima consulta: 3 de junho. Uma eternidade. À tarde, decidimos ir para Baden-Baden. Antes, porém, marquei tudo que foi pedido. Alguns para breve, um para depois da consulta. 

À noite, ainda tive uma consulta com meu nutricionista, mas não tive de coragem de contar que tudo havia mudado. Optar por uma alimentação melhor não faria mal, de qualquer modo."

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Na padaria

Da janela da padaria, onde parei para comer um croissant e beber um café preto depois do exame de sangue, vejo a funcionária regando as plantas que pretendem dar um pouco de privacidade a quem se senta às mesas externas. 

Vejo uma mulher jovem passar aos pulos, fazendo uma espécie de polichinelo em movimento. Vejo duas amigas colocarem o papo em dias com seus vestidos bonitos enquanto comem um pain au chocolat. Duas outras, em mesas diferentes, trocam olhares ao perceberem o mesmo pedido diante de si: latte macchiato, servido como costume em um copo transparente. 

O trânsito flui harmonioso na segunda-feira cedo. Estudantes acompanhados de duas professoras passam tomando picolé, o luxo dos últimos dias de aula e a perspectiva das férias de verão. 

O cliente costumeiro fala um „até amanhã“ para a atendente da padaria. Enquanto outro faz um pedido aos pouquinhos, como se fosse lembrando devagar a longa lista de pedidos de quem ficou em casa, pede uma sacola, a atendente desculpa-se por ter que cobrá-la. Ele: „alles gut“.

E eu? Eu termino meu café, desejo um dia bonito para a atendente e parto para meu dia cheio de consultas.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Revisão nos olhos

Ontem fui ao oftalmologista, depois de... três anos.

No Brasil, eu marcava consulta a cada seis meses. Aqui na Alemanha, no começo eu estava ocupada com outras coisas. Somente quando tive que fazer um exame obrigatório no trabalho é que fui marcar uma consulta com um oftalmo, em 2019. Não gostei do médico, do consultório. Pensei que precisava procurar outro. Como estava indo tudo bem, não pensei mais no assunto. 

Dois anos se passaram e teve novamente o exame obrigatório no trabalho, feito por uma médica "comum", que faz o exame de qualquer jeito e sempre recomenda consultar um oftalmo depois. Resolvi seguir a orientação, pois estava percebendo que de perto o óculos mais atrapalha do que ajuda - uso o óculos para longe, mas ele nunca me incomodou para perto. 

Isso foi lá por fevereiro. Liguei para praticamente todos os oftalmologistas de Heidelberg. "Infelizmente não temos horários para pacientes novos", foi a frase que ouvi repetidamente. Até que resolvi perguntar para uma secretária quando passariam a aceitar novamente: julho. Consulta marcada para um futuro ainda bem distante. 

Pois ontem o futuro chegou. Gostei do médico. Fiz vários exames, medições, fotos dos olhos. Está tudo bem. O grau ainda é o mesmo de cinco anos atrás. A questão da vista cansada, segundo ele, enquanto não for desconfortável ler sem os óculos, é para eu aguentar um pouco mais antes de fazer um óculos específico. Resposta típica de médico alemão, mas desta vez ouvi sem me irritar. Eu não quero um segundo óculos ou um óculos para as duas coisas.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Mudanças inesperadas

Como virginiana, você planeja tudo, faz listas, compras antecipadas, reserva hotéis e aí, de repente, recebe uma notícia que muda tudo. Nunca gostei muito de alterar planos, especialmente planos feitos com bastante antecedência. Pois é, agora tive que aprender a reprogramar tudo.

Antes de um pequeno furacão passar pela minha vida, me diverti bastante desde o último post. 

Recebi uma amiga e meu afilhado aqui na Alemanha em abril. Passeamos bastante, conversamos muito, fizemos algumas viagens, foi tão bom. Ainda consegui encontrar outra amiga que mora na Europa, mas desde a pandemia não tinha mais conseguido ver. 

Depois, fui passar duas semanas com minha mãe na Turquia. Ela veio na excursão do grupo brasileiro que já estava programada há dois anos. Deu tudo certo. Eu já estava duvidando um pouco, dado que tantas operadoras quebraram durante a pandemia. A Turquia é um país maravilhoso para se conhecer. Tem lugares lindos e muita história. Recomendo. E ainda teve o passeio de balão, que foi ótimo. 

Livro novo e dor de garganta

 Eu não sei explicar bem o porquê, mas tenho uma quedinha por dias nublados. Obviamente, eu adoro os dias de sol, mas sinto uma tranquilidad...