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sexta-feira, 5 de maio de 2023

Diário do câncer 19 - Reha

Estou em uma clínica de reabilitação, o que para nós, brasileiros, soa um pouco mais dramático do que realmente é. Aqui na Alemanha ninguém se "assusta" quando alguém fala que está indo para uma Reha, nome popular para essa fase após um longo período de licença médica. Existe um nome mais complicado em alemão: Anschlussheilbehandlung, que é o correto de se usar, mas todos conhecem por Reha. 

Ir para uma Reha, ou uma clínica de reabilitação, é um direito de todos que passaram mais de seis semanas de licença médica. É uma forma que o Estado encontrou para ajudar na reabilitação de pessoas que estiveram doentes por um longo tempo. O objetivo nada mais é do que preparar a pessoa para a volta ao trabalho, oferecendo acesso a diferentes tipos de esporte, fisioterapia, acompanhamento médico e psicológico e por aí vai.

Normalmente, fica-se três semanas na Reha. Pode-se prorrogar, mas tudo depende da disponibilidade. Na clínica em que estou é superdifícil conseguir uma vaga.

Quando estava na metade do tratamento, eu estava muito em dúvida se viria ou não. Para quê? Quero ir logo trabalhar, era meu pensamento. Conversei com algumas colegas alemãs do trabalho, um conhecido que havia ido para uma clínica e aos poucos fui mudando minha opinião. Por que não? Um tempo para mim, em um ambiente diferente, com atividades diversas. 

Foi uma decisão acertada. 

Cheguei no dia 18 de abril, uma semana após ter voltado da viagem ao Brasil.

Como escrevi em outro post, a clínica em que estou é focada em pacientes que tiverem câncer de mama. São 46 mulheres, com idades entre 20 e poucos até 60 anos. Pacientes jovens, segundo uma classificação usada em clínicas de tratamento de tumores. Na cidade vizinha, há outra clínica para pacientes em geral. Sou grata por ter conseguido vir para cá, pois somos todas parecidas. A troca é muito boa. 

Devo dizer que tive um pouco de azar, pois logo depois que cheguei do Brasil, peguei uma gripe. Quando cheguei à clínica, não estava tão mal, mas depois piorei. A segunda semana foi praticamente perdida, infelizmente. 

Apesar disso, considero que está sendo um tempo muito bom para mim. 

Os primeiros dias foram bem lentos, com poucos compromissos. No segundo dia, tive uma consulta com uma médica muito boa. Como eu gostaria que todas as médicas fossem assim. Ali ainda estava razoavelmente bem. Fiz mais dois dias de atividades e meu corpo disse: chega! Foram cinco dias de febre alta, na cama, suando, tossindo, limpando o nariz a cada segundo. 

Desde o final da semana passada, estou melhor. Aos poucos, fui retomando as atividades. Nesta semana, a terceira (já?!), tive dias cheios. Foi bom! 

Todos os dias, às 18h, recebemos a programação do dia seguinte. Ontem, por exemplo, que foi um dia cheio, tive exame de sangue, um atendimento individual na fisioterapia (para aprender a massagear a cicatriz), treino na academia, esporte em grupo (foi step, quase como nos anos '90), Nordic Walking, palestra sobre direitos que temos depois da doença e yoga.

Entre uma atividade e outra, temos tempo para relaxar, dormir, sentar-se ao sol (quando ele aparece), conversar com as outras pacientes. 

Existe também uma sala com computadores, nos quais podemos fazer exercícios de memória, e uma sala para arteterapia com todo tipo de material para desenhar, pintar etc. A clínica é relativamente nova, as instalações são bonitas, tudo é muito bem cuidado. Também há uma pequena estante com livros diversos e muitos quebra-cabeças. 

No período em que estava doente, li dois livros e montei um quebra-cabeças de mil peças. Foi bom para me distrair. 

O tempo durante as três semanas não foi dos melhores. Como eu estava recolhida, nem liguei muito, mas ontem fez um dia lindo e vi o quando é bom quando o sol aparece. Devagarinho, os dias têm ficado mais quentes. Isso me deixa bem mais animada. 

Ah, um ponto negativo foi que a psicóloga também ficou doente. Então, praticamente não tivemos atendimento psicológico, o que todas acharam bem ruim. 
 No centrinho de Bad Überkingen, onde fica a clínica
 Vista da janela do meu quarto, nos primeiros dias
Nos arredores da clínica, durante uma caminhada
 Os brotos nas macieiras
 Na floresta, aqui perto da clínica
 No parque da cidade, no centro, em Bad Überkingen
 Quebra-cabeça coletivo
 Opções de quebra-cabeças
 O quarto
 O outro lado do quarto :-)
 Presentinhos que estavam no cofre, deixados pela paciente que se hospedou aqui antes
 A fachada da clínica
 A vista da janela hoje de manhã

quarta-feira, 26 de abril de 2023

Março - abril 2023

1. Parece que meu cabelo nasceu para ser liso mesmo. Eu tinha uma vaga esperança de que ele se inspirasse nos cabelos dos meus irmãos e de parte da família da minha mãe - na qual os cabelos são ondulados. Não, ele prefere seguir liso pela vida. Só que agora em vez de querer ir para a esquerda, ele decidiu que prefere ir para a direita. A cada dia cresce um pouquinho. Voltaram os mesmos fios brancos que já existiam antes. No geral, continua bem escuro. Confesso que estou bem feliz, pois voltou muito melhor do que era há um ano. Ainda é fino, mas está por todos os lados do couro cabeludo.

2. Passamos 16 dias no Brasil. Acabei a radioterapia no dia 20 de março e no dia 23, embarcamos. Deu tudo certinho. Pareceu até planejado. Nem foi. Golpes de sorte acontecem às vezes. Foram duas semanas maravilhosas. Consegui encontrar amigas, parentes, festejar os 80 da mãe, ir a Esmeralda com o T. Ele queria tanto. Eu queria tanto. Revi amigas importantes, o que me deixou feliz. Para ele, coitado, foi uma overdose de pessoas - mais de 40, eu diria. "Ele é tão simpático e sorridente", foi o comentário geral.

3. Faz uma semana que estou na clínica de reabilitação. Estava indo tudo bem, mas peguei, imagino, uma gripe (Corona não é. Resfriado com 39 de febre?). Eu raramente medi minha temperatura na vida. Nesta semana, tirei o atraso. Cinco dias com febre. Sei lá se já tinha vivido isso. Hoje foi o primeiro dia que amanheci melhor. O nariz ainda escorre, um pouco de tosse insistente, mas melhor do que nos últimos dias. O ruim é que nos últimos 5 dias não fiz nada, não pude participar das atividades. O meu lado introvertido agradece não precisar participar das refeições coletivas. Isso pra mim é normalmente uma pequena tortura. Não que as outras pacientes sejam pessoas chatas. 

4. A clínica atende 46 mulheres simultaneamente. Durante pelo menos três semanas, fazemos exercícios, temos diferentes terapias, trocamos experiências. A clínica é praticamente como um hotel. Cada uma tem seu quarto. Há um local para as refeições. Uma sala para os momentos entre as atividades. Diariamente, cada uma recebe sua lista de compromissos para o dia seguinte. Há também uma ampla sala de ginástica, uma "academia", uma sala com bicicletas ergométricas, salas para terapias individuais. É tudo relativamente novo.  

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Diário do câncer 18 - radioterapia e imunoterapia

Na semana passada, comecei mais uma etapa do tratamento do câncer de mama: a radioterapia.

Mesmo com a quimioterapia e a cirurgia tendo sido bem-sucedidas, o tratamento não acaba nelas. Há pelo menos mais duas etapas, no meu caso: a radioterapia e a imunoterapia. 

Comecei a tomar as doses da imunoterapia ainda em janeiro. Serão quatro doses, até o final de maio. Inicialmente seriam nove, a cada três semanas. Devido a uma viagem e ao meu interesse em ir para uma clínica de reabilitação ao final do tratamento, os médicos adotaram uma outra possibilidade permitida, ou seja, a cada seis semanas. 

Já a radioterapia começou na semana passada. Antes de começar, fiz uma tomografia computadorizada e recebi quatro "tatuagens", quatro pontinhos, que parecem terem sido feitos com uma caneta, sendo dois nas laterais do corpo e dois na barriga. Na primeira sessão, os enfermeiros desenharam com canetinhas onde a radiação iria pegar. Essas marcações são refeitas quase todos os dias, pois minha pele absorve a tinta bem fácil - e talvez também porque tomo banho todos os dias. 

Hoje de manhã, fiz a nona sessão. Ao todo, serão 25, durante cinco semanas. As sessões ocorrem todos os dias de semana. No fim de semana, a pele descansa das radiações. 

Por enquanto, está indo tudo bem. Os efeitos colaterais mais comuns são cansaço e ressecamento e/ou queimadura da pele. Perguntei ao médico o porquê do cansaço, não parecia fazer muito sentido para mim. Ele me explicou que a radiação mata células. O objetivo é eliminar células cancerígenas que ainda estejam eventualmente nos linfonodos que não podem ser retirados em cirurgias ou que não foram afetados pela quimioterapia. É uma prevenção. Como mata células, o organismo precisa gerar novas e isso causa o cansaço, esse trabalho extra, por assim dizer. 

Quanto à pele, o que notei até agora é que ela fica mais quente logo após a sessão e está levemente mais escura no local que recebe a radiação, mas nem vermelha nem sensível, um pouco bronzeada. Hoje, por precaução, fui conversar com a enfermeira que orienta e atende quando há algum problema. Há quem fique com feridas no local. Ela avaliou que está indo tudo bem e que não preciso fazer nada.

Antes de começar, vi alguns vídeos de pacientes sobre o tema. No Brasil, os médicos logo já passam um creme ou uma pomada e ensinam truques - desde colocar folhas de repolho para absorver o calor da pele até fazer compressas de chá de camomila. Aqui, a recomendação é simplesmente não fazer nada - sem cremes, sem pomadas, assim como não usar desodorante, perfume ou qualquer produto que possa "ajudar" a queimar a pele. Como está indo tudo bem, resolvi adotar a postura alemã. A única coisa que estou fazendo é beber muita água ao longo do dia. Algo que não tem contraindicação - eu acho.

Ontem eu cronometrei a sessão. Entre tirar a parte superior da roupa, esperar a enfermeira me chamar, ajustar o aparelho, tomar a radiação e recolocar a roupa, foram 11 minutos e 29 segundos. Demora mais para ir e voltar. Como as sessões têm sido pela manhã - hoje foi às 7h15! -, tenho aproveitado para fazer uma caminhada depois. Quando é bem cedo, vou tomar café. As manhãs têm sido bem agradáveis, especialmente porque a primavera está chegando, fevereiro está dando um show com dias bonitos e estou me sentindo bem e feliz.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Diário do câncer 17 - cirurgia

Acabada a quimioterapia, fiquei semanas à espera da cirurgia, que foi marcada para 7 de dezembro. Nesse meio tempo, tomei uma dose da imunoterapia, fui à ginecologista, fiz exame de sangue. No dia anterior à cirurgia, fui ao hospital para saber como tudo funcionaria. Fica-se sabendo dos horários, sobre os riscos, mais uma vez é falado sobre o tipo de cirurgia e recebe-se informações sobre a anestesia. Também são preenchidos formulários e formulários.

Às 7h30 do dia seguinte, eu já estava lá à espera da médica para um último exame. Depois da consulta com a médica que me operaria e com a diretora-geral da clínica, fui levada para o meu quarto, que dividi durante seis dias com uma outra paciente. Antes da cirurgia, foi marcado o local do tumor e do linfonodo sentinela com um arame fininho. Assim que isso tudo estava pronto, voltei para o quarto e esperei. 

Antes das 11h, fui levada para o centro cirúrgico. Lá recebi a anestesia e quando voltei, já estava operada. Confesso que eu amo anestesia. Nem me importo de fazer endoscopia, por exemplo, porque amo a sensação pós-exame. Desta vez, não foi diferente. Você volta, mas ainda está envolto naquela névoa do medicamento. Fui levada para o quarto lá pelas 14h30. O enfermeiro trouxe meu almoço todo feliz. Uma coxa de frango gigante. A fome a tornou ainda melhor. 

A minha companheira de quarto só foi operada de tarde, ficou praticamente o dia todo sem comer, pois depois da cirurgia sentiu muita dor. Eu não senti dor em momento algum e sou muito grata por isso. Tomei sempre os medicamentos que me deram, mas quando fui para casa, tomei apenas dois ibuprofenos no primeiro dia e nada mais.

No dia da cirurgia, optei por não receber visitas, pois estava bem cansada. Nos outros dias, T. e minha mãe sempre apareciam. Eu só podia receber uma visita por dia no quarto. Como eu estava bem, sempre os encontrava uma sala de espera, onde não era proibido mais de uma pessoa. No penúltimo dia de internação, uma amiga brasileira que estava em Heidelberg também foi me ver, para minha felicidade.

Nos primeiros dias, eu tinha dois drenos: um da mama e outro da axila/gânglios. O da mama foi retirado já no terceiro dia. O outro, apenas no dia da alta, do dia 12. 

A minha operação foi para retirar a parte em que estava localizado o tumor. Felizmente, não uma mastectomia. Se há essa possibilidade, os médicos sempre preferem tirar apenas o que for necessário. Retiraram menos de 2cm, mas 17 linfonodos, soube hoje. Foi uma cirurgia relativamente pequena.

A carta com o resultado do exame patológico chegou hoje. Nos últimos ultrassons que eu havia feito, os médicos sempre viam ainda algo na região onde estava o tumor. O patologista atestou que se tratava de material "morto" e não mais células cancerígenas. Também não foram mais encontrados traços de câncer nos linfonodos. Retiraram 17 e, felizmente, estavam todos sem câncer. Olhando agora, dá uma pena terem retirado tantos, pois isso implica em alguns probleminhas talvez no futuro do meu braço, mas era o que tinha que ser feito na hora. 

Eu fiquei aliviada quando li a carta. 

Ainda terei radioterapia pela frente e nove sessões de imunoterapia, mas essa era a parte que mais me preocupava. Por hoje, vou me sentir muito feliz e agradecida. 

Diário do câncer 16 - fim da quimio, covid, viagens

 A quimioterapia chegou ao fim no dia 31 de outubro de 2022. No mesmo dia, fizemos uma pequena viagem para descansar a cabeça e sair da rotina. Passamos duas noites em Nördlingen, uma cidade ainda cercada por muros e que fica em um lugar atingido por um meteorito há mais de 15 milhões de anos. Um casal de amigos nos encontrou lá e foram dois dias bem felizes e em boa companhia. 

De lá, seguimos mais para o sul, para nosso vagão localizado entre Reutlingen e Passau. Foi a nossa primeira experiência desse tipo. Já havíamos ficado numa minicasa, mas em um vagão, tipo aqueles de circo, foi a primeira vez. O lugar era legal e o vagão, bonito, mas como não estava claro se teríamos água quente e calefação, o primeiro dia foi meio tenso. Depois que ligaram a energia elétrica, ficamos mais relaxados. Painéis solares e um fogão são, a princípio, os responsáveis pela energia, mas como estava nublado e a lareira não esquentou tanto quanto deveria, nada foi como o esperado. De qualquer forma, passeamos bastante pela região e tivemos dias felizes.

Eu já estava gripada fazia uma semana e meia quando viajamos e minha situação. Quando voltamos, eu estava um pouco melhor, mas no dia seguinte, os sintomas começaram novamente com tudo. Estranho, pensei. No segundo dia em casa, tive febre, algo que não tive nunca durante a quimio e nem sei quando foi a última vez na vida. Liguei para o médico, que recomendou repouso, chá e nada mais... 

No fim de semana seguinte, notei que estava novamente sem paladar. Só aí resolvi fazer um teste de covid. Eu já estava há quase três semanas doente e não mudou praticamente nada o fato de estar com covid. Eu só fiquei meio triste, porque achei que passaria ilesa. Depois de ter feito o teste, comecei a melhorar. O ruim foi que tive que adiar os compromissos médicos que tinha. Felizmente, a doença não foi pior que o resfriado que já me acompanhava. O paladar foi voltando devagarinho nas semanas seguintes.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Diário do câncer 15 - uma fase chega ao fim e outra começa

30.08.22

Ontem recebi a última dose de medicamentos da primeira fase da quimioterapia. Não posso me queixar. É claro que tive alguns efeitos colaterais, mas, de modo geral, tudo transcorreu da melhor forma. Não tive enjoos ou vômito. 

O que notei: queda de cabelo, diminuição de fluídos no corpo, pele mais ressecada, demora na recuperação da pele quando machucada, perda parcial do paladar. Talvez esse último esteja sendo o efeito mais difícil de encarar, mas eu me forço a comer mesmo assim. Emagreci três quilos, mas meu peso varia uns dois quilos toda semana, para mais ou para menos. Estou, confesso, feliz com meu corpo, pois estou no peso que acho ideal para mim. Tenho consciência, porém, de que não posso emagrecer mais.



11.09.22

Oi, C.!

Esta semana foi um pouco atrapalhada.

Era para ter começado a segunda fase da quimioterapia, mas o exame de sangue não deu muito bom. A medicação afeta a produção de sangue e depois de 12 semanas, você pode imaginar o estrago. Os médicos estão sempre atentos. Eu faço exame de sangue toda semana e a quimioterapia só é autorizada se estiver tudo minimamente bem. Nesta semana, não estava. Na quinta-feira, fiz uma transfusão de sangue. Isso ajuda muito a melhorar. E eu sinto imediatamente. O cansaço simplesmente some. Acredito que na terça-feira possa continuar. Eu estava tão ansiosa com a nova medicação, que acredito que foi bom ter feito essa pausa. Teoricamente, é mais agressiva e com mais efeitos colaterais. Vamos ver… Agora me sinto mais forte.

Eu tinha escolhido a data da festa de aniversário justamente por estar mais longe do dia da aplicação. Agora, só me resta torcer para estar bem, pois a quimioterapia ficou bem perto da data. Ontem já preparamos tudo que conseguimos. Várias amigas de diferentes cidades já compraram passagens, reservaram hotéis. Espero estar bem para aproveitar. Certo é que a festa vai sair, mesmo que sem mim.

Eu convidei praticamente todo mundo que mora por aqui. Para alguns é impossível fazer um bate-volta num fim de semana, mas mesmo assim vêm algumas amigas “de longe”. A D. vai vir com a família. Duas amigas cariocas que moram em Hamburgo - e vão se conhecer na festa. Uma recém-chegada de Florianópolis, que está agora em Estrasburgo, que fica a uma hora daqui. A festa será em Baden-Baden, pois no prédio do T. tem um salão de festas com uma boa infraestrutura. Vai começar cedo, pois tudo aqui começa assim, às 17h. Se vierem todos que confirmaram, seremos umas 40 pessoas. Convidei alguns vizinhos do T. também. A L., que talvez venha de Zurique. Duas colegas da biblioteca, mais duas amigas de Heidelberg. A família dele, infelizmente, está praticamente toda de férias, mas talvez um irmão consiga vir com os sobrinhos. Uma grande alegria será a presença da Vanessa, que vem do Brasil e passará uns dias aqui comigo.

Encomendei salgadinhos brasileiros para servir no começo da festa. Eu queria um prato quente, mas logo caí na realidade. Imagina se algum serviço de comida/buffet estaria disponível a 15 dias da data! Santa inocência a minha! Alternativa: encomendei quiches e torta de cebolas (algo típico dessa época) e farei diferentes saladas para acompanhar. De sobremesa, vou fazer um bolinho, uma amiga vai trazer algo doce e uma vizinha vai fazer um bolo. Ontem fiz alguns docinhos também e congelei.

Ontem também compramos as bebidas. Acho que nunca tinha comprado tanta cerveja na vida. É mais ou menos isso. Agora estou fazendo uma lista de músicas, pois gostaria de dançar um pouco.


11.10.2022

Parece que tenho tanto para relembrar, anotar, registrar.

O mês de setembro foi meio cheio de altos e baixos, mas mais altos. Apesar de ter que adiar o início da químio, de ter sido esquecida no dia em que fui fazer uma transfusão de sangue, devo dizer que o resto foi só alegria. Eu me senti mais forte depois da transfusão, a V. veio visitar a Alemanha e me ver, consegui comemorar meu aniversário com vários amigos de diferentes lugares, as vizinhas do T. foram mais do que amáveis comigo, ganhei tantos presentes e tantas contribuições para ajudar o projeto de distribuição de cestas básicas no Rio. E o meu T. foi tão querido e presente como sempre.

Diário do câncer 14 - os primeiros pensamentos sobre a cirurgia

24.08.2022

Na semana passada, tive o encontro com dois médicos para falar sobre a reconstrução da mama. Foi uma conversa curta. Os médicos tentam retirar o mínimo possível, mas se o patologista encontrar ainda algum resquício do tumor, é feita uma nova cirurgia. Se o peito é retirado somente em parte, é obrigatório fazer radioterapia depois. Isso também pode levar alguns meses. A médica me perguntou o que eu esperava: não ter um segundo câncer de mama.

Dias depois, por acaso, conversei com a esposa do dono da marcenaria que fica aqui perto de casa. A irmã dele tem um tumor também. Havia tido um câncer de mama, quando estava quase no fim do tratamento, descobriram um segundo. Ela havia retirado apenas parte da mama. Segundo a irmã, os médicos preferem esse procedimento menos invasivo, pois caso o câncer volte, há chances de ser na mama e não em outro órgão. Eu fiquei impressionada com a conversa e meio depressiva depois. Eu não gostaria de ter um segundo tumor.

Diário do câncer 13 - controle semanal do exame de sangue

05.08.2022

O resultado do exame de sangue semanal virou um momento de expectativa. À medida que o corpo vai recebendo mais medicação, vai ficando mais lento na produção de sangue. Eu não entendo muito, mas a quimio ataca a produção de células que se reproduzem rápido, como as células dos tumores, mas não só. Assim também são as células dos cabelos, da saliva e do sangue. A produção de glóbulos vermelhos e brancos fica mais lenta. A quimio só é permitida quando os níveis estão aceitáveis. Já ocorreu duas vezes de estarem abaixo do esperado.

Nesta semana, para dar uma força na produção tomei um remédio por três dias e ontem fiz uma transfusão de sangue. Vamos ver como serão os resultados no próximo exame. Segundo os médicos, não há muito que eu mesma possa fazer para ajudar. Claro que se alimentar bem sempre ajuda, mas não ao ponto de produzir mais ou menos glóbulos. É algo que o corpo tem que resolver sozinho. Os remédios que tomei eram ampolas e eu mesma apliquei na minha barriga. Fiquei pensando que não foi a primeira vez que fiz isso, mas não lembro agora quando eu mesma tive que aplicar injeções na barriga.



24.08.2022

A transfusão de sangue e os remédios para aumentar os glóbulos brancos deram muito resultado. Agora, os dados preocupantes têm relação com o fígado. Contra isso, por enquanto, não recomendaram nada. É como se o corpo tivesse que se virar sozinho.


Faz algumas semanas que tiramos uns dias de férias. Eu queria um lugar bem tranquilo para não fazer nada. T. queria uma hospedagem que fugisse um pouco do comum. Depois de pesquisar um pouco, achamos uma minicasa na região norte da Floresta Negra, ou seja, a menos de 40 minutos de casa. Eu nem sabia o que esperar, confesso, mas foi muito melhor do que eu poderia imaginar. A casinha, contando o “andar” de cima, tinha 22m². Banheiro e cozinha ficavam num antigo celeiro. Eram duas casinhas, a outra foi ocupada por uma simpática família da Áustria. 

Os vilarejos e cidades próximas ficavam a no máximo 20 minutos. Fomos a Bad Liebenzell, Calw, Hirsau, visitamos uma loja num sítio (em que o caixa ficava aberto numa mesa para você mesmo fazer o troco), fomos às águas termais, comemos bem - mesmo que meu paladar estivesse fazendo greve. O nosso vilarejo, Bieselberg, tinha menos de mil habitantes e só, nem padaria, nem mercado, nem restaurantes, mas casas bonitas e um céu muito estrelado.

Diário do câncer 12 - mensagem para mais alguns amigos

01.08.2022

Estava esperando o melhor momento para dar uma notícia não muito agradável, mas quando seria esse melhor momento? Estou há oito semanas de licença médica. Em maio, recebi o diagnóstico de um câncer de mama e minha vida parece ter saído um pouco do prumo. O primeiro mês foi repleto de exames, ultrassons, tomografias. Por sorte, não houve metástase. Em junho, começaram as sessões de quimioterapia. Amanhã será a oitava. São duas fases com quatro ciclos cada, com medicamentos diferentes, que seguem até pelo menos o fim de outubro. As aplicações são semanais. Ou seja, um longo caminho.

Na semana passada, completados dois ciclos, fiz novamente mamografia e ultrassom. O tumor diminuiu pela metade e perdeu um pouco da força. A médica que acompanhou os exames ficou feliz com os resultados, mas, ainda tão longe do final, sempre avaliam com cautela.

Até a semana passada, estava me sentindo muito bem, com poucos efeitos colaterais. Tirando o cabelo, que raspei já faz um mês – logo depois de minha mãe ainda me ver com a aparência “normal” –, não tinha sentido grande impacto dos remédios. Na semana passada, pela primeira vez, senti-me exausta, em um grau que nunca havia vivido antes. Também parei de sentir o gosto de alguns alimentos, o que é bem ruim, pois acaba tendo um impacto grande na alimentação. Hoje já estou bem melhor, mas amanhã tem nova sessão.

Queria ter melhores notícias, mas queria dividir isso com vocês, pois noto que o apoio dos amigos faz bem.

Espero que vocês estejam bem.

Beijos

Diário do câncer 11 - o passeio com a família

24.06.2022

Como estou me sentindo bem, tenho esperança de poder ir a Paris na próxima semana para esperar pela mãe e pela I. Eu decidi que vou contar à mãe sobre a doença apenas pessoalmente. Não faz sentido ela ficar sabendo antes, apenas para se preocupar. Assim, ela me vê e fica sabendo, sem ficar imaginando coisas.

Eu lamento muito que essa viagem tão esperada seja influenciada pela minha doença. Infelizmente não poderemos fazer tudo que eu gostaria, mas espero estar forte para aproveitarmos o máximo que der.


28.06.2022

Ida a Paris

Como estou tendo poucos efeitos colaterais, ao fazer minha terceira quimioterapia, os médicos permitiram que eu fosse a Paris esperar pela mãe e pela I..
T. me encontrou no trem em Karlsruhe. Chegamos a Paris pouco antes da nove e ainda conseguimos dar um pulinho até a beira do Sena, bebemos uma coisinha lá e depois voltamos para nosso hotel.

Mãe e I. chegaram bem cedo no dia seguinte. Conseguimos aproveitar bem os dias em Paris. T. foi com elas no alto da torre Eiffel, enquanto eu colocava a conversa em dia com minha amiga Julia. 


20.07.2022

Por sorte, durante o período em que a mãe e a I. estiveram por aqui, eu me senti sempre bem. Tirando o cabelo, que raspei ainda nos primeiros dias, pois não aguentava mais a queda, não tive grandes efeitos colaterais. Nos últimos dias, meu paladar começou a sofrer alterações, mas não a todos os alimentos.

Ontem fiz a sexta sessão. Fechei duas partes do primeiro ciclo, ainda faltam duas, ou seja, mais duas quimios completas e quatro parciais. Estou otimista. Espero continuar bem pelo menos até o final deste primeiro ciclo. O exame de sangue de segunda-feira apontou baixa nos leucócitos, mas o de ontem, feito no NCT, permitiu que eu continuasse com o tratamento. A espera do resultado do exame de sangue feito no mesmo dia é o que cansa mais. Espera-se muito para finalmente receber os medicamentos.

Nesta semana, vou prestar mais atenção à minha alimentação. Hoje fui ao supermercado e fiz uma boa compra de alimentos que ajudam a dar um gás no sistema imunológico.

Daqui a pouco vou até a universidade para minha sessão de esporte do estudo sobre esporte e câncer. Ontem fiz em casa, pela primeira vez. Vamos ver se consigo fazer com consistência e periodicidade esperada.

No geral, minha cabeça segue boa.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Diário do câncer 10 - estudos científicos

24.06.2022

Estudos

Desde que soube do câncer de mama, fui convidada para fazer parte de quatro estudos. Aceitei todos. O primeiro, chamado Cognition, diz mais respeito ao câncer em si. Por causa dele, fiz uns exames extras, para que o acompanhamento possa ser melhor. Se descobrirem algo a mais, podem me avisar e adequar meu tratamento.

O segundo estudo chama-se Benefit e tem a ver com câncer e prática esportiva. Antes da quimio, fiz um teste de esforço no NCT, de força e de memória. Após iniciar a quimio, comecei finalmente a prática. Fui colocada no grupo de pacientes que farão exercícios de força durante o tratamento. Fui duas vezes à academia na universidade e recebi orientação sobre os exercícios. Na terceira vez, farão um exame de força. Depois terei de ir duas vezes por semana sem horário marcado e me exercitar em casa uma vez. Acho que isso me fará muito bem.

O terceiro estudo está relacionado ao uso do Port. Eu levo um questionário comigo sempre que vou tomar a quimio. Também responderei alguns questionários de tempos em tempos.

O quarto estudo é sobre o app Enable para pacientes com câncer. Estou gostando de usar, tem todas as minhas consultas agendadas e informações sobre efeitos colaterais e sobre os medicamentos.

Eu vou fazendo parte enquanto estiver me sentindo bem.

Agora, que já estou quase no final do meu tratamento, posso escrever um pouco mais sobre os estudos. O Cognition ainda segue em andamento. Creio que me acompanhará até o último momento do tratamento.

O Benefit chegou (quase) ao fim quando terminei a quimioterapia. Antes da cirurgia ainda consegui ir fazer a avaliação intermediário, com teste de esforço e de memória. Descobri naquele dia que terei ainda mais teste em seis meses, ou seja, em junho de 2023. Devido a esse estudo, logo após receber a medicação da quimio, eu fazia um exame de sangue.
Eu falhei completamente na realização da meta de dois dias de academia por semana. Consegui ir em média uma vez e olha lá. Nunca fui muito de esporte e foi um verdadeiro desafio. Em casa, os exercícios até funcionaram, mas o ir à academia foi até meio traumático. Praticamente toda semana eu recebia uma ligação das coordenadoras do estudo para saber como eu estava. Houve semanas de cansaço, mas também houve semanas com visitas ou que eu não estava a fim. Até perguntei se não era melhor eu sair do estudo, mas acho que não é tão fácil conseguir participantes e elas me convenceram a ficar. A minha pouca participação também seria útil para o estudo. 

O estudo relacionado ao Port terminou ontem, com a ligação de uma pesquisadora. Ao longo de seis meses eu carreguei um diário do Port toda vez que ía para a quimio. Uma enfermeira respondia algumas perguntas. Ao final da quimio, enviei o diário para os pesquisadores e respondi a um questionário. Nesse período, recebi duas ligações. 

O estudo sobre o app Enable foi bem tranquilo. O que mais tive que fazer foi responder a questionários, muitos deles, no próprio app e enviados pelo correio. Lá pelas tantas alguém me ligou para fazer um teste de eye tracking, mas como sou míope, acabaram me descartando. Eu uso o app toda semana, acho bem úteis as dicas compartilhadas. Os horários das consultas nem sempre são os reais, mas ainda assim é um bom lembrete. 

Diário do câncer 9 - curso de maquiagem

Alguns dias antes de começar a quimioterapia, fiz um curso de maquiagem oferecido para pacientes com câncer. A vida é mesmo engraçada. Eu sempre quis fazer um curso de maquiagem. Ano passado até passei por uma situação cômica com duas amigas. Elas e mais alguns conhecidos aqui de Heidelberg me deram um curso de natação. Como a letra da que fez o cartão não era das melhores, eu li curso de maquiagem e fiquei toda empolgada. Uns segundos depois e ao ver a cara delas é que percebi que havia lido errado. Não era um Schminkkurs, mas um Schwimmkurs

Agora, por causa do câncer estava tendo a chance que sempre quis. E ainda por cima de graça. O curso é oferecido pela instituição DKMS Life. Além do curso on-line, dias antes eles enviam uma bolsa com todos os produtos necessários para fazer a maquiagem. Adoro um brinde, fiquei feliz. E o curso foi excelente. Éramos 7 mulheres, em diferentes estágios do tratamento. Duas bem no finalzinho, com resultados positivos. Eu era a mais nova, quero dizer, a última a começar o tratamento, ainda com cabelos, sobrancelhas etc. 

Elas foram muito amorosas e me disseram muitas palavras de incentivo. Foi uma ótima experiência. 

Diário do câncer 8 - o dia 8, ou seja, a segunda semana de quimioterapia

21.06.2022

Primeira quimioterapia, dia 8

Neste dia tomei apenas um dos medicamentos. Cheguei cedo, fiz o registro, teste de covid e esperei... Esperei quase três horas. Já estava meio preocupada, pensando que o resultado do exame de sangue feito no dia anterior no médico de família havia dado ruim. Não, os médicos do NCT estavam apenas sobrecarregados. A conversa foi rápida, estava tudo bem com meus resultados do exame de sangue. Tomei os medicamentos contra enjoo e alergias e logo depois durante uma hora o remédio da quimio. Desta vez, sofri um pouco com os acessórios gelados. Não sei bem se era reação do remédio, que pode causar dores nas extremidades ou se era do frio mesmo. A primeira meia hora não foi nada fácil. Foi só isso também. Não tive efeitos colaterais e me sinto muito agradecida por isso.

Diário do câncer 7 - dias seguintes à primeira quimio

15.06.2022

Dias seguintes à primeira quimio

Eu não posso reclamar de maneira alguma. O dia seguinte foi tranquilo. Levantei cedo, tomei banho, troquei o curativo, tomei café com o T. e depois fui resolver umas coisas na rua: encomendar minha peruca, levar um livro ao correio, buscar um remédio na farmácia, comprar uma coisinha no supermercado. Mais tarde, fomos almoçar no Red. À tarde, passei deitada, descansando.

No final da tarde, tomamos a decisão de irmos para Baden-Baden. Fomos até a estação e pegamos o trem. Se estivesse muito cheio ou se eu me sentisse mal, iríamos de carro. Deu tudo certo. Ao fim do dia, estávamos em casa em Baden-Baden.

Eu fiquei meio cansada nos dias seguintes à quimio, mas senti apenas um desconforto, que foi uma dor na barriga na quinta-feira – havíamos encontrados amigos em um Biergarten e comi umas batatas fritas, não sei se isso provocou a dor. T. preparou uma bolsa de água quente e fiquei melhor.

Consegui dormir bem todas as noites e tomei somente um remédio, não porque estava com sintomas, mas com medo de ter sintomas. Procurei me hidratar bem, mas minha alimentação não foi das melhores.

Ficamos em Baden-Baden até no domingo. O que ajudou é que teve feriado na quinta-feira e o T. estava praticamente a minha disposição.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 6 - a primeira quimioterapia

 14.06.2022

Primeira quimioterapia, dia 1

Eu estava bem nervosa naquele dia, acordei supercedo. Comi meio Bretzel. Estava com medo de comer demais e passar mal. Não saber como o corpo vai reagir talvez seja um dos maiores desafios psicológicos no dia do tratamento. T. me ajudou a arrumar tudo que queria levar: livro, fones de ouvido, os remédios, água, chá de gengibre, algo para beliscar, uma mantinha, um casaco e os acessórios gelados para colocar nos pés e nas mãos durante a infusão do remédio. Quando chegamos na clínica pouco antes das 8h, fui fazer o teste de covid e entrei. Um senhor estava deixando uma pessoa lá, me olhou rápido, viu minhas bolsas todas e soltou uma exclamação, me olhou novamente com dó e desejou: “Alles Gute!”

Eu estava meio nauseada de nervosa, mas fui seguindoe um passo de cada vez: o registro no guichê, a apresentação do teste, as primeiras informações sobre o que fazer. Peguei meus documentos, levei aonde deveria, esperei um pouco. Logo depois, me mostraram onde era meu lugar, minha poltrona. Arrumei todas as minhas coisas lá e fiquei esperando ser chamada pela médica. Enquanto isso, uma enfermeira me passava algumas informações sobre efeitos colaterais e dicas. A consulta com a médica foi direta e simples. Estava liberada para começar. Antes, fui à cafeteria com meu vale e troquei por frutas e uma bebida.

Primeiro tomei um comprimido e recebi um pouco de soro para limpar meu Port. A agulha que seria usada naquele dia havia sido instalada na cirurgia no dia anterior. Tomei os primeiros remédios, que são para evitar enjoo e alergias. O primeiro medicamento da quimioterapia comecei a tomar lá pelas 10h com meus acessórios gelados. Nada fácil, mas parece que ajuda a evitar dores nas extremidades depois. O segundo medicamente demorou para ser aplicado, pois simplesmente não havia chegado. Foi uma longa espera, durante a qual li um pouco, dormi, comi, ouvi música. As aplicações dos dois últimos medicamentos transcorreram de maneira tranquila. Perto das 16h estava pronta para ir para casa. T. me buscou. Ao chegar em casa, comi um pouco da sopa que havia preparado anteriormente. Ainda estava meio dolorida da cirurgia do Port, mas dormi bem à noite.

Diário do câncer de mama 5 - o implante do "Port"

 13.06.2022

"Levantei cedo neste dia, tomei um café da manhã leve e peguei o ônibus até a clínica na universidade, onde faria o implante do meu Port, um cateter ligado a uma veia que leva o medicamento diretamente ao coração, de onde é bombeado para o resto do corpo. O teste de covid havia feito na noite anterior. Cheguei às 7h20. Estava um pouco nervosa, mas confiante de que daria tudo certo. Era, afinal, minha primeira cirurgia - além das dos dentes sisos. Os preparativos para a cirurgia foram relativamente rápidos. Antes, porém, fui convidada e aceitei participar de mais um estudo. Troquei de roupa, fui levada para a sala de cirurgia, prepararam tudo e esperei uns 20 minutos. O médico, com grandes olhos azuis, chegou, conversou um pouco, deu a anestesia e começou a cirurgia pontualmente às 8h30. Eu o ouvia conversando com o assistente. Meio que gelei quando ouvi a palavra problema, mas ele logo solucionou o que quer que fosse. Às 8h41, a cirurgia estava concluída. Juntei minhas coisas, caminhei um pouco pelo campus até a parada do bonde. Chegando em casa, passei o dia em repouso. T. chegou no final da tarde. Havíamos ficado duas semanas sem nos ver, pois ele havia contraído covid. Fomos jantar e dar uma caminhada."

Diário do câncer de mama 4 - os preparativos pré-quimio

 08.06.2022

E-mail escrito para a amiga M.

Oi, M.! Tudo bem?
Hoje não foi um dia muito fácil, e isso que nem começou a fase mais brava...

Foi dia de conhecer onde vou fazer a químio e saber de todos os efeitos colaterais. É meio assustador, mas agora já fui jantar num lugar que gosto muito e já estou um pouco mais relaxada. Eles precisam informar tudo que pode dar reação e quais são as reações. Não é a melhor coisa a se ouvir, mas tem que ouvir para ficar alerta caso ocorram mesmo os sintomas.

O lado bom de tudo é que não preciso fazer praticamente nada, além de submeter meu corpo a tantas consultas, exames de sangue e outros tantos. O pessoal da clínica da Universidade de Heidelberg cuida de tudo. Agenda todas as consultas, prepara todos os documentos, me alerta sobre tudo que tenho à disposição (acompanhamento psicológico, ajuda para resolver papeladas de dispensa do trabalho se precisar, acompanhamento no dia da químio, pois ainda não pode ter acompanhando externo por causa da pandemia).

Só sei que nas últimas semanas virei objeto de pesquisa de três grupos de estudos. Um sobre o câncer de mama em si, outro sobre esporte e câncer e agora um sobre um aplicativo que oferecem para as pacientes (com todos os horários das consultas, meus exames, meus documentos etc.). Enquanto eu tiver forças, vou cooperando. O do esporte vai me fazer ir à academia (do centro de tratamento) duas vezes por semana e uma vez fazer exercícios em casa... Nunca tive uma agenda tão cheia desde que moro aqui.

T. pegou covid dos sobrinhos durante nossas férias em família. Meu anjo da guarda foi muito competente. Não sei como não peguei, pois além do contato com as crianças, ele ficou aqui em casa até praticamente o exame dar positivo. Demos muito mole, mas felizmente eu estava com alguma proteção que me livrou dessa. Daqui pra frente, o sistema imunológico não poderá mais ser colocado assim à prova (mesmo que sem querer).

Duas colegas de trabalho estão meio que acompanhando de perto. Falei pra outras três, com reações diversas. Uma que é durona e esteve doente em 2020 por muitos meses ficou com os olhos mareados. É minha vizinha de porte e disse para eu me concentrar no que importa, ou seja, em mim. Uma outra, que fazia uns dois anos mal falava comigo (porque eu topei fazer uma tarefa para meu chefe em 2020 e ela ficou puta, pois é contra tudo que ele faz, e achou que eu não deveria apoia-lo em nada), mas que está no conselho de trabalhadores comigo e queria saber por que eu não iria me candidatar novamente nas próximas eleições, ficou perplexa quando falei. Na hora, não teve muita reação, me fez algumas perguntas. Uns dias depois voltou à minha sala, para saber como tinha sido a viagem a Montpellier e me dizer que se ela pudesse ajudar em algo, de alguma forma, era para que falar. E meu chefe continua com a mistura de apoio e de sem noçãozisse...

Hoje a médica recomendou que eu me afaste do trabalho, pelo menos nas primeiras semanas, até ver como meu corpo vai reagir. Acho que vou fazer isso. Assim também poderei talvez ir para Baden-Baden, o que ainda estou pensando, pois todos meus médicos, hospital etc. estão aqui em Heidelberg.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 3 - minha rotina nas sessões de quimioterapia

Escrevo este post no dia da minha penúltima sessão de químio. 

Até agora, não posso reclamar, as sessões foram sempre tranquilas. 

Eu explico um pouco nas anotações abaixo, mas vou descrever um pouco como foram. Vai que alguém precisando saber um pouco mais chega até aqui. :-) 

A minha quimioterapia foi dividida em duas fases. 

A primeira teve duração de 12 semanas. Foram quatro ciclos, com aplicações no dia 1, dia 8 e dia 15. 

No dia 1, eu ía ao NCT para receber toda a medicação: Placitaxel, carboplatin e prembolizumb mais uns remédios contra enjoo e alergia, que me davam um sono danado. A rotina no dia da quimio sempre era: chegar ao NCT; mostrar o certificado de vacinação contra covid; ir à secretaria do setor ginecológico para se registrar; fazer um teste de covid; esperar 20 minutos; se negativo, voltar à secretaria e pegar minha pasta com todos os detalhes do meu tratamento; ir à seção onde é realizada a químio e entregar a pasta; esperar. 

A espera foi sempre muito variada, de 5 minutos a uma hora. A enfermeira chefe do dia nos informa em qual setor da enfermaria eu receberei o tratamento. O setor é composto normalmente por 5 cadeiras com certa distância uma da outra. A enfermeira responsável pelo setor já prepara o Port para receber a medicação e a paciente fica aguardando ser chamada para a conversa com o médico. 

Nesse meio tempo, a enfermeira ou uma senhora que faz trabalho voluntário vem perguntar se queremos chá, café, uma coca-cola :-) e um biscoito. Também é possível pedir uma coberta e um travesseiro. As enfermeiras também aproveitam esse momento para perguntar como a paciente está e dar dicar sobre como evitar ou diminuir os efeitos colaterais. Toda semana, caio em um setor diferente, mas as enfermeiras do NCT são sempre muito atenciosas.

O tempo da espera pelo médico pode variar muito. Hoje, por exemplo, esperei três horas (!), mas estava bem instalada, então nem senti. A consulta é feita em uma sala separada, mas já presenciei algumas vezes a conversa de médicos com outras pacientes ali mesmo. Comigo aconteceu somente uma vez. Prefiro ir para um lugar mais reservado. 

O médico tem uma rotina de perguntas: se está tudo bem, como está se sentindo, se sente dores nos dedos, se teve febre. Até mais ou menos a semana 8, minha resposta era sempre: estou me sentindo maravilhosa, numa tradução tosca do que falo em alemão. :-) Somente a partir dos dois meses de tratamento, comecei a me sentir mais cansada. O médico analisa então os resultado do exame de sangue feito sempre no dia anterior. A quimioterapia ataca células que se multiplicam de forma rápida, como as do sangue, dos cabelos, da saliva e outros líquidos do corpo. Por isso, o exame de sangue mostra bem se o tratamento está surtindo efeito ou não. 

Liberada pela médica, vou com minha pasta marcar a próxima químio na semana seguinte. No caminho, aproveito para pegar algo na cafeteria com meu vale de 6 euros - toda vez, recebo um deles. Na volta ao setor da enfermaria, finalmente começa a aplicação dos remédios. Primeiro um comprimido contra enjoo. Depois, os medicamentos contra alergia e enjoo. Aí tinha uma pausa de meia hora. Finalmente começava a aplicação. Eu nunca fiquei menos do que quatro horas no NCT. Numa das vezes em que a espera foi surreal, eu fui a última a sair da clínica. Já estava tudo escuro, só eu e a enfermeira.

Nas primeiras duas semanas, o T. me levou e buscou. Depois, como eu me sentia bem, acabamos optando por eu ir e voltar a de ônibus, pois fica a clínica fica a somente 12 minutos de casa. Hoje até voltei caminhando. Algumas colegas de químio vão de táxi, pois moram em outras cidades. O plano de saúde cobre o transporte, mas achei que dava mais trabalho providenciar sempre um táxi do que caminhar até a parada de ônibus.

Bom, encerrada medicação, é feita a coleta de sangue para uma pesquisa da qual faço parte e depois estou liberada. Outra hora conto como funciona com o Port, o catéter que foi implantado para poupar as veias. 

Nos dias 8 e 15, recebo somente uma medicação, mas os procedimentos são iguais. Só a duração da estadia na clínica é mais curta.

Na semana seguinte, recomeça tudo de novo. Até fechar quatro ciclos. 


"30.05.2022

Consulta e apresentação do tratamento


Nesta consulta com uma médica do NCT recebi todas as informações sobre meu tratamento: primeiro, quimioterapia e depois, cirurgia. Quimioterapia por 20 semanas, em dois ciclos. No primeiro, quatro vezes um coquetel de medicamentos a cada 22 dias mais a aplicação de um dos medicamentos semanalmente. O segundo ciclo com mais 4 vezes outro coquetel de medicamentos a cada 15 dias. Passei a chamar os dias com aplicação do coquetel de quimioterapia completa e os dias com apenas um de quimioterapia compacta."

Diário do câncer de mama 2

Nas primeiras semanas depois de receber o dignóstico, fiz umas anotações, como se fosse num diário, para que eu depois em lembrasse do processo todo. Acho que escrever me acalma e ajuda a organizar as ideias, por isso sempre fiz diários minha vida toda e também por isso tenho esse espaço aqui ainda ativo. Passados alguns meses e quase chegando ao fim da quimioterapia, leio sobre meus primeiros medos e vejo que tive um período de quimioterapia muito tranquilo, pelo menos até agora. 

"22.05.2022


Preferi não fazer buscas na internet para não enlouquecer, mas sei que terei que passar por quimioterapia e uma cirurgia bem difícil. Na minha imaginação, toda vez que passasse um período complicado buscaria abrigo em Baden-Baden. Após uma conversa que não era exatamente sobre isso, dei-me conta de que o caminho é individual. Terei apoio, mas tudo que tiver que passar, passarei sozinha. É duro pensar assim, mas o melhor é não criar expectativas, pois ninguém sabe como agir em situações como essas."


"25.05.2022

Ganhei um chocolate da colega que trabalha na sala ao lado. Um agrado espontâneo sempre faz bem.

Observo que evito tocar no tumor, coisa que antes do diagnóstico não ocorria. É como se fosse um medo de que “se quebrasse”, se rompesse e espalhasse pelo resto do corpo, o que é no momento o meu maior temor. Apesar de o exame ter mostrado que isso não ocorreu, o medo é maior.

Escrito no App Pink: O maior desafio talvez seja lidar com o medo dos efeitos colaterais. No momento, eu não tenho exatamente medo de morrer, não mais como nos primeiros dias. Desde que soube que o câncer ainda está localizado e não houve metástase, senti forças para me manter mais positiva. Meu maior medo atualmente é sofrer muito durante as sessões de quimioterapia."


"26.05.2022

Havíamos chegado fazia pouco tempo ao destino de nossas férias em família, quando recebi uma mensagem da minha ginecologista de que havia conseguido antecipar minha consulta para o dia seguinte. Estávamos a duas horas de carro. Olhamos trens, alugueis de carros, conversamos com os pais e eles ofereceram o carro deles para que voltássemos a Heidelberg para a consulta. Saímos cedinho e às 10h estávamos na clínica. Fiz uma mamografia (finalmente!), outro ultrassom longo. Também fiquei sabendo que o exame dos ossos havia tido um bom resultado, ou seja, sem metástase dos ossos.

A médica conseguiu marcar para a segunda seguinte a apresentação do meu tratamento no NCT. Voltamos para Günzburg felizes por finalmente o tratamento estar mais perto. Ainda fomos no parque da Legoland depois da viagem, onde encontramos a família."

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Surpresas nem sempre são boas... (Diário do câncer de mama 1)

A vida nos surpreende de um jeito às vezes. 

Meu 2022 estava indo bem, já tinha feito algumas viagens, tinha outras planejadas, iria receber visitas do Brasil pelo menos duas vezes. Estava cheia de planos, marquei minhas férias para o ano todo já em março, inclusive uma viagem ao Brasil em outubro para o casamento de uma prima. 

E aí, de repente, a notícia de um câncer de mama mudou todos os planos. 

Eu recebi o diagnóstico no dia 12 de maio. Na semana anterior, eu havia ido à ginecologista, pois um cisto na mama direita estava me incomodando. Eu estava bem despreocupada, pois tais cistos me acompanham há mais de 10 anos. Ela tentou fazer a punção e não saiu nada. Pediu para voltar dois dias depois para coleta de material para uma biopsia. 

"12.05.2022

 Amanheceu tudo bem no dia 12 de maio. Uma das bolsas da bike estava preparada com roupas para um fim de semana prolongado em Baden-Baden. A outra, arrumaria mais tarde ao voltar do trabalho. Estávamos planejando passear de bicicleta, pois o tempo prometia ser bom. 

Às 10h59 o telefone tocou. “O resultado da biopsia saiu. Venha, por favor, ao consultório. A senhora tem alguém para lhe acompanhar?”

Ao ouvir isso, eu já sabia. Levantei-me da cadeira, fui até a estante, apoie a mão e soltei um soluço e as lágrimas desceram.

Em seguida, enviei uma mensagem para o T. dizendo o que havia se passado e que estava com a cabeça meio desnorteada. 

“Estou indo”, ele escreveu. 

“Não adianta, a consulta já é agora, daqui a pouco.” 

Ele chegou alguns minutos antes de eu ser chamada ao consultório. 

Sem rodeios, veio a frase que eu já sabia que ouviria: “A senhora está com câncer de mama”.

Diagnóstico recebido, indicação dos exames a serem feitos até a data longínqua da próxima consulta: 3 de junho. Uma eternidade. À tarde, decidimos ir para Baden-Baden. Antes, porém, marquei tudo que foi pedido. Alguns para breve, um para depois da consulta. 

À noite, ainda tive uma consulta com meu nutricionista, mas não tive de coragem de contar que tudo havia mudado. Optar por uma alimentação melhor não faria mal, de qualquer modo."

Livro novo e dor de garganta

 Eu não sei explicar bem o porquê, mas tenho uma quedinha por dias nublados. Obviamente, eu adoro os dias de sol, mas sinto uma tranquilidad...