quarta-feira, 26 de abril de 2023

Março - abril 2023

1. Parece que meu cabelo nasceu para ser liso mesmo. Eu tinha uma vaga esperança de que ele se inspirasse nos cabelos dos meus irmãos e de parte da família da minha mãe - na qual os cabelos são ondulados. Não, ele prefere seguir liso pela vida. Só que agora em vez de querer ir para a esquerda, ele decidiu que prefere ir para a direita. A cada dia cresce um pouquinho. Voltaram os mesmos fios brancos que já existiam antes. No geral, continua bem escuro. Confesso que estou bem feliz, pois voltou muito melhor do que era há um ano. Ainda é fino, mas está por todos os lados do couro cabeludo.

2. Passamos 16 dias no Brasil. Acabei a radioterapia no dia 20 de março e no dia 23, embarcamos. Deu tudo certinho. Pareceu até planejado. Nem foi. Golpes de sorte acontecem às vezes. Foram duas semanas maravilhosas. Consegui encontrar amigas, parentes, festejar os 80 da mãe, ir a Esmeralda com o T. Ele queria tanto. Eu queria tanto. Revi amigas importantes, o que me deixou feliz. Para ele, coitado, foi uma overdose de pessoas - mais de 40, eu diria. "Ele é tão simpático e sorridente", foi o comentário geral.

3. Faz uma semana que estou na clínica de reabilitação. Estava indo tudo bem, mas peguei, imagino, uma gripe (Corona não é. Resfriado com 39 de febre?). Eu raramente medi minha temperatura na vida. Nesta semana, tirei o atraso. Cinco dias com febre. Sei lá se já tinha vivido isso. Hoje foi o primeiro dia que amanheci melhor. O nariz ainda escorre, um pouco de tosse insistente, mas melhor do que nos últimos dias. O ruim é que nos últimos 5 dias não fiz nada, não pude participar das atividades. O meu lado introvertido agradece não precisar participar das refeições coletivas. Isso pra mim é normalmente uma pequena tortura. Não que as outras pacientes sejam pessoas chatas. 

4. A clínica atende 46 mulheres simultaneamente. Durante pelo menos três semanas, fazemos exercícios, temos diferentes terapias, trocamos experiências. A clínica é praticamente como um hotel. Cada uma tem seu quarto. Há um local para as refeições. Uma sala para os momentos entre as atividades. Diariamente, cada uma recebe sua lista de compromissos para o dia seguinte. Há também uma ampla sala de ginástica, uma "academia", uma sala com bicicletas ergométricas, salas para terapias individuais. É tudo relativamente novo.  

segunda-feira, 6 de março de 2023

Sonhos - 10 anos depois

Estava tentando organizar as etiquetas do blog e acabei caindo num antigo post que continha uma lista de desejos. 

Foi interessante ver, quase 10 anos depois, que consegui realizar alguns dos sonhos. 
  • Viver um novo período fora do Brasil (é o que estou fazendo nos últimos 5 anos)
  • Aprender a nadar (fiz dois cursos. Não sei nadar perfeitamente, mas já consigo me virar na água, pelo menos)
  • Ler todos os livros em papel que tenho em casa e passá-los adiante (neste caso, uma mudança de país me fez me livrar de praticamente todos meus livros, lidos ou não lidos)
  • Terminar o doutorado (ufa!)
  • Encontrar um novo emprego que eu realmente ame (e não é que a mudança de país também me trouxe isso?!)
  • Aprender a falar alemão direito (bom, está melhor do que era há cinco anos)
  • Fazer uma megafesta de 40 anos (não foi mega, não foi como eu esperava, mas foi uma festa bonita, cercada de amigos queridos e com a presença das minhas melhores amigas)
  • Viajar pelo menos uma vez por ano para o exterior (se atravessar a fronteira da França contar, tenho conseguido!)
  • Fazer o curso de Organizadora Profissional (fiz e gostei)
Das coisas que "mais ou menos" fiz ou comecei:
  • Viajar para a Disney com as minhas sobrinhas um dia (fomos para Aracaju e uma delas já veio para a Alemanha e França)
  • Aprender a falar italiano direito (estou num curso e pretendo ir até o fim)
  • Dirigir um Smart (não dirigi, mas andei em um e fiquei feliz)
  • Aprender a fazer receitas gostosas (evoluí bem)
O que ainda permanece na lista de vontades:
  • Aprender a falar inglês direito (já melhorou, já piorou, mas eu nunca estou satisfeita)
  • Aprender a falar espanhol direito 
  • Viajar uma vez na primeira classe 
  • Aprender a costurar 
  • Conhecer Machu Picchu 
  • Passar um aniversário em Nova York 
Coisas que não tenho mais vontade de fazer:
  • Escrever um romance 
  • Aprender a falar francês 
  • Dar um mergulho no mar 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Diário do câncer 18 - radioterapia e imunoterapia

Na semana passada, comecei mais uma etapa do tratamento do câncer de mama: a radioterapia.

Mesmo com a quimioterapia e a cirurgia tendo sido bem-sucedidas, o tratamento não acaba nelas. Há pelo menos mais duas etapas, no meu caso: a radioterapia e a imunoterapia. 

Comecei a tomar as doses da imunoterapia ainda em janeiro. Serão quatro doses, até o final de maio. Inicialmente seriam nove, a cada três semanas. Devido a uma viagem e ao meu interesse em ir para uma clínica de reabilitação ao final do tratamento, os médicos adotaram uma outra possibilidade permitida, ou seja, a cada seis semanas. 

Já a radioterapia começou na semana passada. Antes de começar, fiz uma tomografia computadorizada e recebi quatro "tatuagens", quatro pontinhos, que parecem terem sido feitos com uma caneta, sendo dois nas laterais do corpo e dois na barriga. Na primeira sessão, os enfermeiros desenharam com canetinhas onde a radiação iria pegar. Essas marcações são refeitas quase todos os dias, pois minha pele absorve a tinta bem fácil - e talvez também porque tomo banho todos os dias. 

Hoje de manhã, fiz a nona sessão. Ao todo, serão 25, durante cinco semanas. As sessões ocorrem todos os dias de semana. No fim de semana, a pele descansa das radiações. 

Por enquanto, está indo tudo bem. Os efeitos colaterais mais comuns são cansaço e ressecamento e/ou queimadura da pele. Perguntei ao médico o porquê do cansaço, não parecia fazer muito sentido para mim. Ele me explicou que a radiação mata células. O objetivo é eliminar células cancerígenas que ainda estejam eventualmente nos linfonodos que não podem ser retirados em cirurgias ou que não foram afetados pela quimioterapia. É uma prevenção. Como mata células, o organismo precisa gerar novas e isso causa o cansaço, esse trabalho extra, por assim dizer. 

Quanto à pele, o que notei até agora é que ela fica mais quente logo após a sessão e está levemente mais escura no local que recebe a radiação, mas nem vermelha nem sensível, um pouco bronzeada. Hoje, por precaução, fui conversar com a enfermeira que orienta e atende quando há algum problema. Há quem fique com feridas no local. Ela avaliou que está indo tudo bem e que não preciso fazer nada.

Antes de começar, vi alguns vídeos de pacientes sobre o tema. No Brasil, os médicos logo já passam um creme ou uma pomada e ensinam truques - desde colocar folhas de repolho para absorver o calor da pele até fazer compressas de chá de camomila. Aqui, a recomendação é simplesmente não fazer nada - sem cremes, sem pomadas, assim como não usar desodorante, perfume ou qualquer produto que possa "ajudar" a queimar a pele. Como está indo tudo bem, resolvi adotar a postura alemã. A única coisa que estou fazendo é beber muita água ao longo do dia. Algo que não tem contraindicação - eu acho.

Ontem eu cronometrei a sessão. Entre tirar a parte superior da roupa, esperar a enfermeira me chamar, ajustar o aparelho, tomar a radiação e recolocar a roupa, foram 11 minutos e 29 segundos. Demora mais para ir e voltar. Como as sessões têm sido pela manhã - hoje foi às 7h15! -, tenho aproveitado para fazer uma caminhada depois. Quando é bem cedo, vou tomar café. As manhãs têm sido bem agradáveis, especialmente porque a primavera está chegando, fevereiro está dando um show com dias bonitos e estou me sentindo bem e feliz.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Filmes 2023

De uns dias para cá, desde que T. assinou Amazon Prime, passei a assistir filmes de novo, algo que não havia mais feito durante os últimos meses, anos. Resolvi anotá-los para não me esquecer. 

  1. It had to be you (2000), com um galã do começo dos anos 2000, Michael Vartan
  2. A vineyard romance (2021), filme para a televisão, bobinho
  3. Beautiful Day in the Neighborhood (Mister Rogers, 2019), com Tom Hanks, sobre o homem mais gentil que um repórter todo errado conheceu. Baseado em uma entrevista publicada na Esquire
  4. The only living boy in New York (2017)
  5. Suburban girl (2007) - acho melhor começar a ver a avaliação do imdb antes de começar a ver um filme...
  6. The English teacher (2013), com a Julianne Moore e o Greg Kinnear. Bobinho, mas bom para passar o tempo
  7. Serious Moonlight (2009), escolhi por causa da Meg Ryan, mas sempre fico dividida quando a vejo tão modificada. Esse é um filme de baixo orçamento, se passa basicamente no banheiro de uma casa. O filme também é estrelado por Timothy Hutton, que gosto do filme Beautiful Girls (com a Natalie Portman ainda uma menininha), mas não gostei tanto neste
  8. Hector and the Search for Happiness (2014), uma amiga me deu o livro em que foi baseado este filme recentemente. É um filme bem feito. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Uma pausa

Desde maio do ano passado, minha vida tem sido monotemática. Acho que nem tem como ser diferente. Houve alguns respiros como a minha festa de aniversário, a visita da minha mãe e de uma amiga na virada de ano, mas no geral não tem muito como se desviar do assunto.

Agora mesmo, desde o início do ano, estou me preparando para mais uma etapa do tratamento: a radioterapia, que começará finalmente na próxima semana. 

Como não tinha mais nada programado para esta semana, resolvi então fazer uma pequena viagem. Primeiro pensei em ir a Lourdes, o que tenho planejado há meses, mas fiquei com receio de fazer uma viagem tão longa. Não posso carregar peso e acabei optando por um destino mais próximo. 

Escolhi uma cidade bonita não muito longe de Heidelberg: Schwäbisch Hall. Toda vez que preciso falar o nome da cidade, respiro, concentro e aí acerto. :-) Soube hoje, logo depois de chegar, que os nativos a chamam apenas de Hall. Bem mais fácil. Hall é uma palavra que está relacionada à produção de sal. Aprendi que sempre que uma cidade tem o complemento "Hall", ela no passado tinha algo relacionado a sal.

Schäbisch Hall é muito bonita e tranquila. Amanhã, planejo visitar um museu, fazer uma caminhada até um monastério. O único ponto negativo, por assim dizer, é o frio! As temperaturas não se distanciam muito de zero.







terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Diário do câncer 17 - cirurgia

Acabada a quimioterapia, fiquei semanas à espera da cirurgia, que foi marcada para 7 de dezembro. Nesse meio tempo, tomei uma dose da imunoterapia, fui à ginecologista, fiz exame de sangue. No dia anterior à cirurgia, fui ao hospital para saber como tudo funcionaria. Fica-se sabendo dos horários, sobre os riscos, mais uma vez é falado sobre o tipo de cirurgia e recebe-se informações sobre a anestesia. Também são preenchidos formulários e formulários.

Às 7h30 do dia seguinte, eu já estava lá à espera da médica para um último exame. Depois da consulta com a médica que me operaria e com a diretora-geral da clínica, fui levada para o meu quarto, que dividi durante seis dias com uma outra paciente. Antes da cirurgia, foi marcado o local do tumor e do linfonodo sentinela com um arame fininho. Assim que isso tudo estava pronto, voltei para o quarto e esperei. 

Antes das 11h, fui levada para o centro cirúrgico. Lá recebi a anestesia e quando voltei, já estava operada. Confesso que eu amo anestesia. Nem me importo de fazer endoscopia, por exemplo, porque amo a sensação pós-exame. Desta vez, não foi diferente. Você volta, mas ainda está envolto naquela névoa do medicamento. Fui levada para o quarto lá pelas 14h30. O enfermeiro trouxe meu almoço todo feliz. Uma coxa de frango gigante. A fome a tornou ainda melhor. 

A minha companheira de quarto só foi operada de tarde, ficou praticamente o dia todo sem comer, pois depois da cirurgia sentiu muita dor. Eu não senti dor em momento algum e sou muito grata por isso. Tomei sempre os medicamentos que me deram, mas quando fui para casa, tomei apenas dois ibuprofenos no primeiro dia e nada mais.

No dia da cirurgia, optei por não receber visitas, pois estava bem cansada. Nos outros dias, T. e minha mãe sempre apareciam. Eu só podia receber uma visita por dia no quarto. Como eu estava bem, sempre os encontrava uma sala de espera, onde não era proibido mais de uma pessoa. No penúltimo dia de internação, uma amiga brasileira que estava em Heidelberg também foi me ver, para minha felicidade.

Nos primeiros dias, eu tinha dois drenos: um da mama e outro da axila/gânglios. O da mama foi retirado já no terceiro dia. O outro, apenas no dia da alta, do dia 12. 

A minha operação foi para retirar a parte em que estava localizado o tumor. Felizmente, não uma mastectomia. Se há essa possibilidade, os médicos sempre preferem tirar apenas o que for necessário. Retiraram menos de 2cm, mas 17 linfonodos, soube hoje. Foi uma cirurgia relativamente pequena.

A carta com o resultado do exame patológico chegou hoje. Nos últimos ultrassons que eu havia feito, os médicos sempre viam ainda algo na região onde estava o tumor. O patologista atestou que se tratava de material "morto" e não mais células cancerígenas. Também não foram mais encontrados traços de câncer nos linfonodos. Retiraram 17 e, felizmente, estavam todos sem câncer. Olhando agora, dá uma pena terem retirado tantos, pois isso implica em alguns probleminhas talvez no futuro do meu braço, mas era o que tinha que ser feito na hora. 

Eu fiquei aliviada quando li a carta. 

Ainda terei radioterapia pela frente e nove sessões de imunoterapia, mas essa era a parte que mais me preocupava. Por hoje, vou me sentir muito feliz e agradecida. 

Diário do câncer 16 - fim da quimio, covid, viagens

 A quimioterapia chegou ao fim no dia 31 de outubro de 2022. No mesmo dia, fizemos uma pequena viagem para descansar a cabeça e sair da rotina. Passamos duas noites em Nördlingen, uma cidade ainda cercada por muros e que fica em um lugar atingido por um meteorito há mais de 15 milhões de anos. Um casal de amigos nos encontrou lá e foram dois dias bem felizes e em boa companhia. 

De lá, seguimos mais para o sul, para nosso vagão localizado entre Reutlingen e Passau. Foi a nossa primeira experiência desse tipo. Já havíamos ficado numa minicasa, mas em um vagão, tipo aqueles de circo, foi a primeira vez. O lugar era legal e o vagão, bonito, mas como não estava claro se teríamos água quente e calefação, o primeiro dia foi meio tenso. Depois que ligaram a energia elétrica, ficamos mais relaxados. Painéis solares e um fogão são, a princípio, os responsáveis pela energia, mas como estava nublado e a lareira não esquentou tanto quanto deveria, nada foi como o esperado. De qualquer forma, passeamos bastante pela região e tivemos dias felizes.

Eu já estava gripada fazia uma semana e meia quando viajamos e minha situação. Quando voltamos, eu estava um pouco melhor, mas no dia seguinte, os sintomas começaram novamente com tudo. Estranho, pensei. No segundo dia em casa, tive febre, algo que não tive nunca durante a quimio e nem sei quando foi a última vez na vida. Liguei para o médico, que recomendou repouso, chá e nada mais... 

No fim de semana seguinte, notei que estava novamente sem paladar. Só aí resolvi fazer um teste de covid. Eu já estava há quase três semanas doente e não mudou praticamente nada o fato de estar com covid. Eu só fiquei meio triste, porque achei que passaria ilesa. Depois de ter feito o teste, comecei a melhorar. O ruim foi que tive que adiar os compromissos médicos que tinha. Felizmente, a doença não foi pior que o resfriado que já me acompanhava. O paladar foi voltando devagarinho nas semanas seguintes.

Livro novo e dor de garganta

 Eu não sei explicar bem o porquê, mas tenho uma quedinha por dias nublados. Obviamente, eu adoro os dias de sol, mas sinto uma tranquilidad...