terça-feira, 11 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 2

Nas primeiras semanas depois de receber o dignóstico, fiz umas anotações, como se fosse num diário, para que eu depois em lembrasse do processo todo. Acho que escrever me acalma e ajuda a organizar as ideias, por isso sempre fiz diários minha vida toda e também por isso tenho esse espaço aqui ainda ativo. Passados alguns meses e quase chegando ao fim da quimioterapia, leio sobre meus primeiros medos e vejo que tive um período de quimioterapia muito tranquilo, pelo menos até agora. 

"22.05.2022


Preferi não fazer buscas na internet para não enlouquecer, mas sei que terei que passar por quimioterapia e uma cirurgia bem difícil. Na minha imaginação, toda vez que passasse um período complicado buscaria abrigo em Baden-Baden. Após uma conversa que não era exatamente sobre isso, dei-me conta de que o caminho é individual. Terei apoio, mas tudo que tiver que passar, passarei sozinha. É duro pensar assim, mas o melhor é não criar expectativas, pois ninguém sabe como agir em situações como essas."


"25.05.2022

Ganhei um chocolate da colega que trabalha na sala ao lado. Um agrado espontâneo sempre faz bem.

Observo que evito tocar no tumor, coisa que antes do diagnóstico não ocorria. É como se fosse um medo de que “se quebrasse”, se rompesse e espalhasse pelo resto do corpo, o que é no momento o meu maior temor. Apesar de o exame ter mostrado que isso não ocorreu, o medo é maior.

Escrito no App Pink: O maior desafio talvez seja lidar com o medo dos efeitos colaterais. No momento, eu não tenho exatamente medo de morrer, não mais como nos primeiros dias. Desde que soube que o câncer ainda está localizado e não houve metástase, senti forças para me manter mais positiva. Meu maior medo atualmente é sofrer muito durante as sessões de quimioterapia."


"26.05.2022

Havíamos chegado fazia pouco tempo ao destino de nossas férias em família, quando recebi uma mensagem da minha ginecologista de que havia conseguido antecipar minha consulta para o dia seguinte. Estávamos a duas horas de carro. Olhamos trens, alugueis de carros, conversamos com os pais e eles ofereceram o carro deles para que voltássemos a Heidelberg para a consulta. Saímos cedinho e às 10h estávamos na clínica. Fiz uma mamografia (finalmente!), outro ultrassom longo. Também fiquei sabendo que o exame dos ossos havia tido um bom resultado, ou seja, sem metástase dos ossos.

A médica conseguiu marcar para a segunda seguinte a apresentação do meu tratamento no NCT. Voltamos para Günzburg felizes por finalmente o tratamento estar mais perto. Ainda fomos no parque da Legoland depois da viagem, onde encontramos a família."

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Surpresas nem sempre são boas... (Diário do câncer de mama 1)

A vida nos surpreende de um jeito às vezes. 

Meu 2022 estava indo bem, já tinha feito algumas viagens, tinha outras planejadas, iria receber visitas do Brasil pelo menos duas vezes. Estava cheia de planos, marquei minhas férias para o ano todo já em março, inclusive uma viagem ao Brasil em outubro para o casamento de uma prima. 

E aí, de repente, a notícia de um câncer de mama mudou todos os planos. 

Eu recebi o diagnóstico no dia 12 de maio. Na semana anterior, eu havia ido à ginecologista, pois um cisto na mama direita estava me incomodando. Eu estava bem despreocupada, pois tais cistos me acompanham há mais de 10 anos. Ela tentou fazer a punção e não saiu nada. Pediu para voltar dois dias depois para coleta de material para uma biopsia. 

"12.05.2022

 Amanheceu tudo bem no dia 12 de maio. Uma das bolsas da bike estava preparada com roupas para um fim de semana prolongado em Baden-Baden. A outra, arrumaria mais tarde ao voltar do trabalho. Estávamos planejando passear de bicicleta, pois o tempo prometia ser bom. 

Às 10h59 o telefone tocou. “O resultado da biopsia saiu. Venha, por favor, ao consultório. A senhora tem alguém para lhe acompanhar?”

Ao ouvir isso, eu já sabia. Levantei-me da cadeira, fui até a estante, apoie a mão e soltei um soluço e as lágrimas desceram.

Em seguida, enviei uma mensagem para o T. dizendo o que havia se passado e que estava com a cabeça meio desnorteada. 

“Estou indo”, ele escreveu. 

“Não adianta, a consulta já é agora, daqui a pouco.” 

Ele chegou alguns minutos antes de eu ser chamada ao consultório. 

Sem rodeios, veio a frase que eu já sabia que ouviria: “A senhora está com câncer de mama”.

Diagnóstico recebido, indicação dos exames a serem feitos até a data longínqua da próxima consulta: 3 de junho. Uma eternidade. À tarde, decidimos ir para Baden-Baden. Antes, porém, marquei tudo que foi pedido. Alguns para breve, um para depois da consulta. 

À noite, ainda tive uma consulta com meu nutricionista, mas não tive de coragem de contar que tudo havia mudado. Optar por uma alimentação melhor não faria mal, de qualquer modo."

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Na padaria

Da janela da padaria, onde parei para comer um croissant e beber um café preto depois do exame de sangue, vejo a funcionária regando as plantas que pretendem dar um pouco de privacidade a quem se senta às mesas externas. 

Vejo uma mulher jovem passar aos pulos, fazendo uma espécie de polichinelo em movimento. Vejo duas amigas colocarem o papo em dias com seus vestidos bonitos enquanto comem um pain au chocolat. Duas outras, em mesas diferentes, trocam olhares ao perceberem o mesmo pedido diante de si: latte macchiato, servido como costume em um copo transparente. 

O trânsito flui harmonioso na segunda-feira cedo. Estudantes acompanhados de duas professoras passam tomando picolé, o luxo dos últimos dias de aula e a perspectiva das férias de verão. 

O cliente costumeiro fala um „até amanhã“ para a atendente da padaria. Enquanto outro faz um pedido aos pouquinhos, como se fosse lembrando devagar a longa lista de pedidos de quem ficou em casa, pede uma sacola, a atendente desculpa-se por ter que cobrá-la. Ele: „alles gut“.

E eu? Eu termino meu café, desejo um dia bonito para a atendente e parto para meu dia cheio de consultas.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Revisão nos olhos

Ontem fui ao oftalmologista, depois de... três anos.

No Brasil, eu marcava consulta a cada seis meses. Aqui na Alemanha, no começo eu estava ocupada com outras coisas. Somente quando tive que fazer um exame obrigatório no trabalho é que fui marcar uma consulta com um oftalmo, em 2019. Não gostei do médico, do consultório. Pensei que precisava procurar outro. Como estava indo tudo bem, não pensei mais no assunto. 

Dois anos se passaram e teve novamente o exame obrigatório no trabalho, feito por uma médica "comum", que faz o exame de qualquer jeito e sempre recomenda consultar um oftalmo depois. Resolvi seguir a orientação, pois estava percebendo que de perto o óculos mais atrapalha do que ajuda - uso o óculos para longe, mas ele nunca me incomodou para perto. 

Isso foi lá por fevereiro. Liguei para praticamente todos os oftalmologistas de Heidelberg. "Infelizmente não temos horários para pacientes novos", foi a frase que ouvi repetidamente. Até que resolvi perguntar para uma secretária quando passariam a aceitar novamente: julho. Consulta marcada para um futuro ainda bem distante. 

Pois ontem o futuro chegou. Gostei do médico. Fiz vários exames, medições, fotos dos olhos. Está tudo bem. O grau ainda é o mesmo de cinco anos atrás. A questão da vista cansada, segundo ele, enquanto não for desconfortável ler sem os óculos, é para eu aguentar um pouco mais antes de fazer um óculos específico. Resposta típica de médico alemão, mas desta vez ouvi sem me irritar. Eu não quero um segundo óculos ou um óculos para as duas coisas.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Mudanças inesperadas

Como virginiana, você planeja tudo, faz listas, compras antecipadas, reserva hotéis e aí, de repente, recebe uma notícia que muda tudo. Nunca gostei muito de alterar planos, especialmente planos feitos com bastante antecedência. Pois é, agora tive que aprender a reprogramar tudo.

Antes de um pequeno furacão passar pela minha vida, me diverti bastante desde o último post. 

Recebi uma amiga e meu afilhado aqui na Alemanha em abril. Passeamos bastante, conversamos muito, fizemos algumas viagens, foi tão bom. Ainda consegui encontrar outra amiga que mora na Europa, mas desde a pandemia não tinha mais conseguido ver. 

Depois, fui passar duas semanas com minha mãe na Turquia. Ela veio na excursão do grupo brasileiro que já estava programada há dois anos. Deu tudo certo. Eu já estava duvidando um pouco, dado que tantas operadoras quebraram durante a pandemia. A Turquia é um país maravilhoso para se conhecer. Tem lugares lindos e muita história. Recomendo. E ainda teve o passeio de balão, que foi ótimo. 

quinta-feira, 24 de março de 2022

Sangue

Na semana passada, resolvi doar sangue. Eu nunca pesei 50kg e por isso nunca pensei em doar sangue. Há algum tempo, conversando com uma amiga que há anos doa - e recentemente perdeu muitos quilos chegando a pesar menos de 50kg -, pensei que se eu bebesse muita água, conseguiria atingir os 50kg e, finalmente, doar sangue. 

Agora sei que foi uma ideia de jerico. 

Marquei meu horário para o começo da manhã. Quando cheguei lá, o médico me avaliou, me pesou (com muita roupa e celular no bolso) e me disse que achava que eu não tinha bebido e comido o suficiente. Indicou voltar umas horas mais tarde, depois de almoçar e de beber o suficiente. 

Pois bem. Fiz isso. 

Durante a doação em si, foi tudo bem. Quando acabou, ainda estava tudo bem. Passaram-se alguns minutos e tudo ficou muito ruim. Nunca me senti tão mal fisicamente na minha vida. Meu corpo, com 535ml a menos de sangue, entrou em colapso. Exagero um pouco, eu sei, mas a situação ficou bem séria (para mim). Ouvi uma campainha e em poucos segundos dois médicos estavam ao meu lado, assim como uma enfermeira.

Senti uma dor na minha barriga pior do que uma cólica. Pedi para ir ao banheiro. A enfermeira me acompanhou. Ao me olhar no espelho do banheiro, fiquei atônita. Nunca tinha me visto daquela cor, ou melhor, sem cor. Eu estava bege, sem sangue no rosto.

Só sei que tive que abandonar a ideia de voltar ao trabalho, tomei soro e fiquei de molho por mais uma hora, coberta por um edredom grosso, na sala da médica. Depois, ela me deu um chocolate quente. Aos poucos tudo foi ficando bem de novo.

Acho que tão cedo não decidirei doar sangue de novo. 

sexta-feira, 4 de março de 2022

Até quando?

Estou inconformada com os desdobramentos das últimas duas semanas. Quando pensamos que estamos chegando ao fim de um período ruim, chegam notícias ainda piores. A pandemia já está sendo algo horrível e agora essa perspectiva de uma guerra. Sinceramente, haja nervos. 

Apesar de o mundo nunca ter vivido em paz, no meu pequeno mundo nunca houve guerra. Vivi no Rio, é certo, mas apesar de tudo minha rotina era bem tranquila. Sempre que formulo a frase "nunca me senti ameaçada", me sinto uma idiota elitista, pois sempre estive perto de pessoas ou lugares que viviam suas guerras particulares.

Só que agora estou me sentindo nervosa com a situação vivida na Ucrânia. Eu queria, queríamos, só um pouquinho de tranquilidade, programar minhas viagens, poder simplesmente viver sem grandes preocupações. 

Penso que quem nasceu nos anos 1970 no Brasil teve a sorte de ter uma vidinha relativamente tranquila. Pegamos períodos de economia ruim, mas ainda éramos dependentes de alguém e não tínhamos que lidar com esse tipo de problema.

Ou será que sempre estive dentro de uma bolha e nunca percebi que o mundo já era um caos?

Eu continuo dentro de uma bolha com emprego, casa, o suficiente para fazer escolhas. Sinto-me novamente uma tola que se vê nervosa. A situação é séria, mas em caso de uma guerra aqui, eu tenho para onde ir, diferente de tantos. 

Livro novo e dor de garganta

 Eu não sei explicar bem o porquê, mas tenho uma quedinha por dias nublados. Obviamente, eu adoro os dias de sol, mas sinto uma tranquilidad...