quarta-feira, 29 de abril de 2020

Viagem de férias 3

A semana no Rio começou com café da manhã numa padaria conhecida de outros tempos, curiosamente, o local escolhido para o curso de português do T. Na segunda-feira, tudo ainda parecia "normal", apesar de eu já estar tentando não tocar em nada e ficar lavando as mãos constantemente. Tomamos café, conheci a professora e fui fazer algumas coisas em Botafogo que tinha planejado antes da viagem. Uma delas não muito sensata, mas era neste dia ou nunca mais: tomar a terceira dose de uma vacina. Naturalmente o posto de saúde estava cheio e esperei horas, mas consegui fazer também a do sarampo e valeu a pena.

O tempo passou voando e logo já estava na hora de buscar o T. Neste dia resolvemos ir até a Rio Star, a nova roda-gigante. Foi uma decisão acertada, pois foi o último dia de funcionamento. Antes, descemos na Cinelândia e fomos caminhando pelo centro, passando pela Igreja da Candelária e pelo Museu do Amanha, que estava fechado. Depois pegamos o VLT para chegar mais perto do local no porto em que fica a roda-gigante. O passeio foi bonito, gostamos. Ainda deu para tomar um chope no final. A volta para Ipanema foi de VLT e metrô. T. pode ver um pouco da nossa desigualdade. O trem pra Zona Sul praticamente vazio. Já pra Zona Norte, apinhado. Naquela semana, começariam as restrições no transporte público, como ônibus apenas com passageiros sentados.

Na terça-feira, pensamos em completar os dois últimos itens da nossa lista: uma água de coco na Lagoa e uma visita ao Jardim Botânico. A professora foi até nosso apê e depois da aula, caminhamos pela Lagoa até o Parque dos Patins, onde tomamos uma água de coco. Já estava tudo vazio, não sei se por ser dia da semana ou se já por prevenção ao vírus. No meio do caminho, bateu uma fome avassaladora. Pensamos em ir na Casa Camolese, mas só encontramos o Rubaiyat aberto. Foi caríssimo, mas foi bom. Nunca mais tinha voltado lá desde o meu aniversário de 40 anos. Quando finalmente atravessamos a rua para ir ao Jardim Botânico, ele havia sido fechado antecipadamente e até hoje ainda não reabriu. Teve que ficar para uma próxima viagem.

Na quarta-feira, novamente café da manha na padaria de Botafogo e aula do T. A esta altura do campeonato já havíamos decidido não ir a SC e ao RS. Então fui providenciar caixas para enviar pelo correio o que havia levado para a família. Depois de apanhar o T., pegamos o metrô e fomos almoçar no Joaquina de Copacabana, com o plano de depois caminharmos um pouco pela orla e bebermos uma caipirinha num quiosque, um desejo antigo que eu tinha, mas quem sugeriu foi o T. Apesar de o clima já estar estranho, tivemos uma tarde bem agradável. O dia estava quente e bonito. Na volta a pé para casa, compramos algumas coisinhas para nosso jantar em casa.

A quinta-feira chegou com notícias de mais restrições em praticamente tudo. T. havia se cadastrado no site do consulado alemão e a recomendação era voltamos o quanto antes para a Alemanha. O nosso novo plano de ficar as três semanas de férias no Rio já não fazia mais sentido. Decidimos então antecipar a volta. Como o apartamento estava alugado até a segunda-feira, tentamos remarcar nossa passagem para este dia. Não havia mais vagas, mas conseguimos para a terça-feira. Maravilha! Ainda teríamos um fim de semana no Rio. À noite, saímos para aproveitar o pouco que ainda estava aberto. Acabamos indo novamente no Paz e Amor. Os demais já estavam fechados – mas por sorte na segunda e na terça, fomos ao Gula Gula e ao Via7.

Estávamos lá aproveitando nosso jantar, quando eu ouvi que o governador estava pensando em fechar os aeroportos já no sábado 21. Gelei. T. ficou sem entender quando fiz uma cara de muita preocupação. Havíamos acabado de mudar nossas passagens e agora aquilo? Bem que um amigo de Milão havia me alertado para não viajar porque poderia haver problemas “logísticos”... Nova decisão: como nosso novo voo partiria de todo modo de Guarulhos, decidimos ir para São Paulo. Quem sabe conseguiríamos antecipar o voo indo pessoalmente à Air France.

Na sexta-feira, depois da última aula de português, juntamos nossas coisas e pegamos nosso voo. Depois de ver que não haveria como alterar o voo, porque simplesmente não havia mais lugar livre, escolhemos um bom hotel, com cozinha e uma pequena sala, e passamos os últimos dias no Brasil estudando português, vendo tv e fazendo um companhia ao outro. Por incrível que pareça, os dias passaram voando. Fomos três vezes ao supermercado ao lado do hotel e compramos uma pizza ali perto. Dispensamos o serviço de quarto e até cozinhamos em nosso pequeno apê. Na noite da pizza, colocamos nossas melhores roupas, abrimos um vinho e simplesmente agradecemos por, apesar de tudo, estarmos bem, protegidos e felizes.

Até mesmo no hotel a situação foi se alterando. Piscina, academia e sauna fecharam quando chegamos. O café da manhã no último dia foi servido no quarto por sugestão do próprio hotel. Havia álcool gel na recepção e também próximo ao elevador e na entrada do restaurante. Os funcionários estavam de máscara e alguns com luvas.

Na terça-feira, fomos para o aeroporto algumas horas antes de nosso voo. Ainda deu para almoçar uma última vez num quilo, tomar uma última caipirinha e colocar cartões-postais no correio.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Viagem de férias 2

Para irmos ao nosso apartamento em Ipanema, pegamos um uber. O motorista todo falante disse que nao iria parar de trabalhar, nao tinha outra opcao. Ao se despedir, fez questao de um aperto de maos. Eu já estava meio neurótica, assim que ele foi embora passei álcool nas maos. Logo encontramos a dona do apê. Muito simpática, nos deixou dar uma refrescada e deixar as malas.

Fizemos nossa primeira caminhada por Ipanema e pelo Leblon. Tomamos um suco. T. escolheu algo bizarro, coitado. Ainda bem que depois pudemos provar outros sucos. As ruas já estavam mais desertas, pelo que me lembrava de um sábado de manha. Fomos até o fim do Leblon e voltamos até o Shopping Leblon, para comer algo e comprar chips para nossos telefones.

T. experimentou pela primeira vez um restaurante a quilo. Achou a ideia interessante.

Com todas as perspectivas nada otimistas para os próximos dias, resolvemos adiantar toda nossa programacao. No sábado mesmo, depois de entrarmos no apê, resolvemos ir ao Pao de Acucar. Estava bem tranquilo, quase só estrangeiros. Eu tentei ficar o máximo possível longe das outras pessoas e aproveitamos todas as oportunidades para lavar as maos.

Foi um dia superlongo, mas ainda encontramos energia à noite para ir ao Alessandro e Frederico, a poucos passos de nosso apê. Estava bem bom. Encerramos o primeiro dia bem felizes, mesmo que ainda um pouco apreensivos e nem tao relaxados como deveríamos estar nas férias.

No dia seguinte, caminhada na praia, que ainda estava vazia bem cedo. Antes de encararmos a ida ao Cristo, almocamos comida bem brasileira no Paz e Amor. Nunca tinha ido ali. Foi uma escolha feliz, pois os garcons foram simpáticos e a comida estava boa. Tanto que até voltamos uma outra vez.

O trem do corcovado já tinha adotado algumas medidas, limitando o número de passageiros. Havia poucas pessoas tanto no trem quanto lá em cima, o que foi ótimo. Deu para olharmos tudo com calma e ainda tomar um suco. Estava um dia lindo e deu para ter uma boa vista da cidade.

Lá de cima vimos o Maracana. Havíamos planejado ver um jogo (Flamengo x Portuguesa) no sábado. Um ex-colega do IBICT flamenguista até iria nos acompanhar, mas no final o jogo foi sem público presente. De qualquer forma, já havíamos decidido nao ir, pois estaríamos chegando da Europa.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Viagem de férias 1

As férias foram programadas no final de novembro e planejadas ao longo dos meses seguintes, com encontros marcados com amigos e a família, passeios agendados e grande expectativa, pois seria a primeira vez do T. no Brasil.

Nas duas semanas antes da viagem, os casos do novo Coronavírus passaram a aumentar rapidamente. Além da China e da Itália, também França, Espanha e Alemanha registravam números significativos de contaminados diariamente.

Justamente nessas duas semanas, nós dois (e praticamente metade da biblioteca onde trabalho) estávamos resfriados. Viajar doente nunca é bom, viajar doente em tempos de uma doença assim, pior ainda. Na semana da viagem, eu fiquei em casa dois dias para me restabelecer. Deu certo. No dia da viagem estava bem melhor.

Depois de muito pensar, ler todo tipo de notícia (no dois dias em casa), resolvemos ir. Se eu fosse viajar sozinha, tenho quase certeza de que nao teria ido, mas a dois acabamos decidindo por fazer a viagem. Eu já havia avisado os amigos que talvez fosse melhor nao nos encontrarmos. Estava bem dividida, pois sabia-se que a disseminaçao em nível mundial estava ocorrendo a partir de pessoas que estiveram na Europa.

No aeroporto de Frankfurt, pouco movimento. Fizemos um voo até Paris. Entre os poucos passageiros, dois brasileiros. Eu os ouvi falando português. E confirmei que eram brasileiros da pior forma. Os dois colocaram máscaras na área de embarque. Quando passei pelos bancos em que haviam estado... os plásticos das máscaras haviam sido deixados ali. Por vergonha, eu os juntei e joguei na lixeira que estava a poucos passos dali. Que raiva! Quando os encontrei no ônibus que nos levaria até o aviao, nao me contive. "Vocês sao os únicos que estao de máscara aqui. E também foram os únicos que deixaram os plásticos das máscaras sobre os bancos no setor de embarque." Um ainda resmungou algo de nao estar no Brasil (nao entendi o quê) e o outro pediu desculpas. Quando embarcamos no aviao, o primeiro me chamou para dizer que havia seis pessoas no voo com máscaras. "O problema nao era a máscara", respondi séria. Engracado. De abandonar seu lixo, ele nao se incomodou. Ficou indignado de alguém chamar a atençao.

Em Paris, havia um pouco mais de movimento, mas viajamos sem ninguém ao nosso lado. Eu limpei bancos, encostos, mesinha e tela com lenços com álcool gel. Sei lá se faz diferença, mas me senti mais tranquila. O voo foi bom, a comida estava inacreditavelmente excelente. Quando chegamos ao Rio, nenhum controle. O Brasil ainda tinha menos de 100 casos no dia 14 de março.

Diário do câncer de mama 6 - a primeira quimioterapia

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