quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 6 - a primeira quimioterapia

 14.06.2022

Primeira quimioterapia, dia 1

Eu estava bem nervosa naquele dia, acordei supercedo. Comi meio Bretzel. Estava com medo de comer demais e passar mal. Não saber como o corpo vai reagir talvez seja um dos maiores desafios psicológicos no dia do tratamento. T. me ajudou a arrumar tudo que queria levar: livro, fones de ouvido, os remédios, água, chá de gengibre, algo para beliscar, uma mantinha, um casaco e os acessórios gelados para colocar nos pés e nas mãos durante a infusão do remédio. Quando chegamos na clínica pouco antes das 8h, fui fazer o teste de covid e entrei. Um senhor estava deixando uma pessoa lá, me olhou rápido, viu minhas bolsas todas e soltou uma exclamação, me olhou novamente com dó e desejou: “Alles Gute!”

Eu estava meio nauseada de nervosa, mas fui seguindoe um passo de cada vez: o registro no guichê, a apresentação do teste, as primeiras informações sobre o que fazer. Peguei meus documentos, levei aonde deveria, esperei um pouco. Logo depois, me mostraram onde era meu lugar, minha poltrona. Arrumei todas as minhas coisas lá e fiquei esperando ser chamada pela médica. Enquanto isso, uma enfermeira me passava algumas informações sobre efeitos colaterais e dicas. A consulta com a médica foi direta e simples. Estava liberada para começar. Antes, fui à cafeteria com meu vale e troquei por frutas e uma bebida.

Primeiro tomei um comprimido e recebi um pouco de soro para limpar meu Port. A agulha que seria usada naquele dia havia sido instalada na cirurgia no dia anterior. Tomei os primeiros remédios, que são para evitar enjoo e alergias. O primeiro medicamento da quimioterapia comecei a tomar lá pelas 10h com meus acessórios gelados. Nada fácil, mas parece que ajuda a evitar dores nas extremidades depois. O segundo medicamente demorou para ser aplicado, pois simplesmente não havia chegado. Foi uma longa espera, durante a qual li um pouco, dormi, comi, ouvi música. As aplicações dos dois últimos medicamentos transcorreram de maneira tranquila. Perto das 16h estava pronta para ir para casa. T. me buscou. Ao chegar em casa, comi um pouco da sopa que havia preparado anteriormente. Ainda estava meio dolorida da cirurgia do Port, mas dormi bem à noite.

Diário do câncer de mama 5 - o implante do "Port"

 13.06.2022

"Levantei cedo neste dia, tomei um café da manhã leve e peguei o ônibus até a clínica na universidade, onde faria o implante do meu Port, um cateter ligado a uma veia que leva o medicamento diretamente ao coração, de onde é bombeado para o resto do corpo. O teste de covid havia feito na noite anterior. Cheguei às 7h20. Estava um pouco nervosa, mas confiante de que daria tudo certo. Era, afinal, minha primeira cirurgia - além das dos dentes sisos. Os preparativos para a cirurgia foram relativamente rápidos. Antes, porém, fui convidada e aceitei participar de mais um estudo. Troquei de roupa, fui levada para a sala de cirurgia, prepararam tudo e esperei uns 20 minutos. O médico, com grandes olhos azuis, chegou, conversou um pouco, deu a anestesia e começou a cirurgia pontualmente às 8h30. Eu o ouvia conversando com o assistente. Meio que gelei quando ouvi a palavra problema, mas ele logo solucionou o que quer que fosse. Às 8h41, a cirurgia estava concluída. Juntei minhas coisas, caminhei um pouco pelo campus até a parada do bonde. Chegando em casa, passei o dia em repouso. T. chegou no final da tarde. Havíamos ficado duas semanas sem nos ver, pois ele havia contraído covid. Fomos jantar e dar uma caminhada."

Diário do câncer de mama 4 - os preparativos pré-quimio

 08.06.2022

E-mail escrito para a amiga M.

Oi, M.! Tudo bem?
Hoje não foi um dia muito fácil, e isso que nem começou a fase mais brava...

Foi dia de conhecer onde vou fazer a químio e saber de todos os efeitos colaterais. É meio assustador, mas agora já fui jantar num lugar que gosto muito e já estou um pouco mais relaxada. Eles precisam informar tudo que pode dar reação e quais são as reações. Não é a melhor coisa a se ouvir, mas tem que ouvir para ficar alerta caso ocorram mesmo os sintomas.

O lado bom de tudo é que não preciso fazer praticamente nada, além de submeter meu corpo a tantas consultas, exames de sangue e outros tantos. O pessoal da clínica da Universidade de Heidelberg cuida de tudo. Agenda todas as consultas, prepara todos os documentos, me alerta sobre tudo que tenho à disposição (acompanhamento psicológico, ajuda para resolver papeladas de dispensa do trabalho se precisar, acompanhamento no dia da químio, pois ainda não pode ter acompanhando externo por causa da pandemia).

Só sei que nas últimas semanas virei objeto de pesquisa de três grupos de estudos. Um sobre o câncer de mama em si, outro sobre esporte e câncer e agora um sobre um aplicativo que oferecem para as pacientes (com todos os horários das consultas, meus exames, meus documentos etc.). Enquanto eu tiver forças, vou cooperando. O do esporte vai me fazer ir à academia (do centro de tratamento) duas vezes por semana e uma vez fazer exercícios em casa... Nunca tive uma agenda tão cheia desde que moro aqui.

T. pegou covid dos sobrinhos durante nossas férias em família. Meu anjo da guarda foi muito competente. Não sei como não peguei, pois além do contato com as crianças, ele ficou aqui em casa até praticamente o exame dar positivo. Demos muito mole, mas felizmente eu estava com alguma proteção que me livrou dessa. Daqui pra frente, o sistema imunológico não poderá mais ser colocado assim à prova (mesmo que sem querer).

Duas colegas de trabalho estão meio que acompanhando de perto. Falei pra outras três, com reações diversas. Uma que é durona e esteve doente em 2020 por muitos meses ficou com os olhos mareados. É minha vizinha de porte e disse para eu me concentrar no que importa, ou seja, em mim. Uma outra, que fazia uns dois anos mal falava comigo (porque eu topei fazer uma tarefa para meu chefe em 2020 e ela ficou puta, pois é contra tudo que ele faz, e achou que eu não deveria apoia-lo em nada), mas que está no conselho de trabalhadores comigo e queria saber por que eu não iria me candidatar novamente nas próximas eleições, ficou perplexa quando falei. Na hora, não teve muita reação, me fez algumas perguntas. Uns dias depois voltou à minha sala, para saber como tinha sido a viagem a Montpellier e me dizer que se ela pudesse ajudar em algo, de alguma forma, era para que falar. E meu chefe continua com a mistura de apoio e de sem noçãozisse...

Hoje a médica recomendou que eu me afaste do trabalho, pelo menos nas primeiras semanas, até ver como meu corpo vai reagir. Acho que vou fazer isso. Assim também poderei talvez ir para Baden-Baden, o que ainda estou pensando, pois todos meus médicos, hospital etc. estão aqui em Heidelberg.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Diário do câncer de mama 3 - minha rotina nas sessões de quimioterapia

Escrevo este post no dia da minha penúltima sessão de químio. 

Até agora, não posso reclamar, as sessões foram sempre tranquilas. 

Eu explico um pouco nas anotações abaixo, mas vou descrever um pouco como foram. Vai que alguém precisando saber um pouco mais chega até aqui. :-) 

A minha quimioterapia foi dividida em duas fases. 

A primeira teve duração de 12 semanas. Foram quatro ciclos, com aplicações no dia 1, dia 8 e dia 15. 

No dia 1, eu ía ao NCT para receber toda a medicação: Placitaxel, carboplatin e prembolizumb mais uns remédios contra enjoo e alergia, que me davam um sono danado. A rotina no dia da quimio sempre era: chegar ao NCT; mostrar o certificado de vacinação contra covid; ir à secretaria do setor ginecológico para se registrar; fazer um teste de covid; esperar 20 minutos; se negativo, voltar à secretaria e pegar minha pasta com todos os detalhes do meu tratamento; ir à seção onde é realizada a químio e entregar a pasta; esperar. 

A espera foi sempre muito variada, de 5 minutos a uma hora. A enfermeira chefe do dia nos informa em qual setor da enfermaria eu receberei o tratamento. O setor é composto normalmente por 5 cadeiras com certa distância uma da outra. A enfermeira responsável pelo setor já prepara o Port para receber a medicação e a paciente fica aguardando ser chamada para a conversa com o médico. 

Nesse meio tempo, a enfermeira ou uma senhora que faz trabalho voluntário vem perguntar se queremos chá, café, uma coca-cola :-) e um biscoito. Também é possível pedir uma coberta e um travesseiro. As enfermeiras também aproveitam esse momento para perguntar como a paciente está e dar dicar sobre como evitar ou diminuir os efeitos colaterais. Toda semana, caio em um setor diferente, mas as enfermeiras do NCT são sempre muito atenciosas.

O tempo da espera pelo médico pode variar muito. Hoje, por exemplo, esperei três horas (!), mas estava bem instalada, então nem senti. A consulta é feita em uma sala separada, mas já presenciei algumas vezes a conversa de médicos com outras pacientes ali mesmo. Comigo aconteceu somente uma vez. Prefiro ir para um lugar mais reservado. 

O médico tem uma rotina de perguntas: se está tudo bem, como está se sentindo, se sente dores nos dedos, se teve febre. Até mais ou menos a semana 8, minha resposta era sempre: estou me sentindo maravilhosa, numa tradução tosca do que falo em alemão. :-) Somente a partir dos dois meses de tratamento, comecei a me sentir mais cansada. O médico analisa então os resultado do exame de sangue feito sempre no dia anterior. A quimioterapia ataca células que se multiplicam de forma rápida, como as do sangue, dos cabelos, da saliva e outros líquidos do corpo. Por isso, o exame de sangue mostra bem se o tratamento está surtindo efeito ou não. 

Liberada pela médica, vou com minha pasta marcar a próxima químio na semana seguinte. No caminho, aproveito para pegar algo na cafeteria com meu vale de 6 euros - toda vez, recebo um deles. Na volta ao setor da enfermaria, finalmente começa a aplicação dos remédios. Primeiro um comprimido contra enjoo. Depois, os medicamentos contra alergia e enjoo. Aí tinha uma pausa de meia hora. Finalmente começava a aplicação. Eu nunca fiquei menos do que quatro horas no NCT. Numa das vezes em que a espera foi surreal, eu fui a última a sair da clínica. Já estava tudo escuro, só eu e a enfermeira.

Nas primeiras duas semanas, o T. me levou e buscou. Depois, como eu me sentia bem, acabamos optando por eu ir e voltar a de ônibus, pois fica a clínica fica a somente 12 minutos de casa. Hoje até voltei caminhando. Algumas colegas de químio vão de táxi, pois moram em outras cidades. O plano de saúde cobre o transporte, mas achei que dava mais trabalho providenciar sempre um táxi do que caminhar até a parada de ônibus.

Bom, encerrada medicação, é feita a coleta de sangue para uma pesquisa da qual faço parte e depois estou liberada. Outra hora conto como funciona com o Port, o catéter que foi implantado para poupar as veias. 

Nos dias 8 e 15, recebo somente uma medicação, mas os procedimentos são iguais. Só a duração da estadia na clínica é mais curta.

Na semana seguinte, recomeça tudo de novo. Até fechar quatro ciclos. 


"30.05.2022

Consulta e apresentação do tratamento


Nesta consulta com uma médica do NCT recebi todas as informações sobre meu tratamento: primeiro, quimioterapia e depois, cirurgia. Quimioterapia por 20 semanas, em dois ciclos. No primeiro, quatro vezes um coquetel de medicamentos a cada 22 dias mais a aplicação de um dos medicamentos semanalmente. O segundo ciclo com mais 4 vezes outro coquetel de medicamentos a cada 15 dias. Passei a chamar os dias com aplicação do coquetel de quimioterapia completa e os dias com apenas um de quimioterapia compacta."

Diário do câncer de mama 2

Nas primeiras semanas depois de receber o dignóstico, fiz umas anotações, como se fosse num diário, para que eu depois em lembrasse do processo todo. Acho que escrever me acalma e ajuda a organizar as ideias, por isso sempre fiz diários minha vida toda e também por isso tenho esse espaço aqui ainda ativo. Passados alguns meses e quase chegando ao fim da quimioterapia, leio sobre meus primeiros medos e vejo que tive um período de quimioterapia muito tranquilo, pelo menos até agora. 

"22.05.2022


Preferi não fazer buscas na internet para não enlouquecer, mas sei que terei que passar por quimioterapia e uma cirurgia bem difícil. Na minha imaginação, toda vez que passasse um período complicado buscaria abrigo em Baden-Baden. Após uma conversa que não era exatamente sobre isso, dei-me conta de que o caminho é individual. Terei apoio, mas tudo que tiver que passar, passarei sozinha. É duro pensar assim, mas o melhor é não criar expectativas, pois ninguém sabe como agir em situações como essas."


"25.05.2022

Ganhei um chocolate da colega que trabalha na sala ao lado. Um agrado espontâneo sempre faz bem.

Observo que evito tocar no tumor, coisa que antes do diagnóstico não ocorria. É como se fosse um medo de que “se quebrasse”, se rompesse e espalhasse pelo resto do corpo, o que é no momento o meu maior temor. Apesar de o exame ter mostrado que isso não ocorreu, o medo é maior.

Escrito no App Pink: O maior desafio talvez seja lidar com o medo dos efeitos colaterais. No momento, eu não tenho exatamente medo de morrer, não mais como nos primeiros dias. Desde que soube que o câncer ainda está localizado e não houve metástase, senti forças para me manter mais positiva. Meu maior medo atualmente é sofrer muito durante as sessões de quimioterapia."


"26.05.2022

Havíamos chegado fazia pouco tempo ao destino de nossas férias em família, quando recebi uma mensagem da minha ginecologista de que havia conseguido antecipar minha consulta para o dia seguinte. Estávamos a duas horas de carro. Olhamos trens, alugueis de carros, conversamos com os pais e eles ofereceram o carro deles para que voltássemos a Heidelberg para a consulta. Saímos cedinho e às 10h estávamos na clínica. Fiz uma mamografia (finalmente!), outro ultrassom longo. Também fiquei sabendo que o exame dos ossos havia tido um bom resultado, ou seja, sem metástase dos ossos.

A médica conseguiu marcar para a segunda seguinte a apresentação do meu tratamento no NCT. Voltamos para Günzburg felizes por finalmente o tratamento estar mais perto. Ainda fomos no parque da Legoland depois da viagem, onde encontramos a família."

Pequenos comentários

No curso de italiano, de vez em quando, escutamos algumas músicas. Uma delas foi “L'isola che non c'è”, de Edoardo Bennato, música q...