quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Novidade tardia: home office

Na última segunda-feira, recebemos uma mensagem do setor administrativo sobre a nova medida determinada pelo governo, ou seja, o uso de máscaras "médicas" em supermercados, no transporte público e... no local de trabalho. Agora nossas antigas máscaras de pano sao coisa do passado. Só valem as tais máscaras FFP2 ou aquelas descartáveis usadas normalmente em postos de saúde. 

Naturalmente, assim que foi anunciada essa medida na semana passada, as máscaras sumiram. No dia seguinte, praticamente todo mundo já estava adequado à novidade. Menos eu. Até entao eu tinha vivido bem com minhas máscaras caseiras feitas de camisetas velhas. Nao tinha comprado nem umazinha. Tive que me render. 

Como nao achava mais nas lojas aqui perto, encomendei on-line. No mesmo dia, uma colega me deu uma dessas descartáveis e consegui encontrar outras no supermercado. Só tinha procurado nas drogarias. Comprei duas no supermercado e fiquei superfeliz - e arrependida da encomenda cara. Bom, agora tenho sete dessas FFP2, que podem ser usadas e depois deixadas tomando ar por sete dias até o próximo uso.

No mesmo e-mail do chefe do setor admininistrativo veio mais uma recomendacao para trabalhar de casa, quem pudesse. Escrevi imediatamente para a subchefe dizendo que iria me organizar para trabalhar de casa alguns dias da semana. Era algo que ela tinha recomendado já em abril quando voltei das férias. Praticamente toda a biblioteca trabalha de casa. 

Ontem, depois de pensar muito, escrevi dizendo que trabalharei tercas e sextas-feiras de casa. Ela acatou na hora e disse que iria comunicar meu chefe e o departamento pessoal. 

Pensei: quando o chefe souber, vai vir aqui. 

Dito e feito. 

Tem alguns minutos que ele veio todo curioso perguntar por que somente agora, depois de tantos meses, eu decidi trabalhar "parcialmente" de casa. Dei os meus motivos. Recomendacao em todos os lugares (de Angela Merkel, a notícias na tv, o e-mail do comeco da semana). "Mas a senhora nao é obrigada a trabalhar de casa, a senhora sabe, nao? A senhora foi uma das únicas que continuou vindo trabalhar presencialmente, por isso a minha surpresa agora."

Meu chefe tem um lado supercontrolador. Acho que ele estava feliz por saber pelo menos o que uma funcionária faz. :-) As demais, já antigas, nao dao muita bola para ele, infelizmente, e fazem o que querem. 

Eu vou fazer uma tentativa. De repente acho um saco trabalhar de casa. Se bem que com esse clima frio, acho que vai ser bom poder ficar protegida no meu apartamento quentinho duas vezes por semana.  

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Não gorda, mas gorda mesmo assim

Aos 18. Mostrando uma foto que eu adorava para um namorado. Eu amava a foto porque meu cabelo estava comprido, liso. A roupa não era especial, mas eu gostava da expressão no meu rosto: estava feliz encostada num muro na minha casa em Esmeralda. “Olha essa tua barriga.”

Aos 20. Trocando uma roupa perto de uma pessoa da família, me sentindo à vontade, sem grandes sentimentos, simplesmente fazendo algo corriqueiro. “Nossa, Rafaela, mas teu corpo está tão flácido.”

Aos 22. Comprei um top e nunca usei. Num dia em que pensei: Ah, dane-se. Saí do meu quarto na república em que morava e o primeiro comentário da colega de casa. “Credo, que barriga enorme é essa?”

Aos 28. Visitando parentes, consciente de que meu peso estava do mesmo jeito há meses, anos. “Como você está bem, mais magra.”

Aos 30 e tantos, reencontrando um namorado da adolescência no Orkut/Facebook. Depois de algumas mensagens curtas sobre como andava a vida. “Você está bem mais magra agora.”

Por anos seguidos, a cada reclamação sobre minha barriga “gorda”, ouvir um: “você vai conseguir, basta fazer os exercícios certos!” (eliminar a barriga e ser magra).

 

***

 

Eu nunca fui gorda minha vida inteira. Nem acabei a frase e na minha cabeça ecoou quase que automaticamente um: “mais ou menos, né?”.

Com tristeza, percebo o quanto anos e anos de comentários de outras pessoas sobre o meu corpo tiveram um impacto tão negativo em mim.  

Eu sou pequena, tenho pouco mais de um metro e meio de altura. Desde os 13 anos, idade em que lembro que já me pesava de maneira doentia, meu peso variou entre 42 e 50kg. Ou seja, em 30 anos, nunca tive um índice de massa corporal que fosse ruim, nunca precisei alterar meu manequim ao comprar roupas, nunca tive doenças decorrentes da variação do meu peso.

Apesar disso,

fui convencida desde muito cedo de que meu corpo não era adequado – às expectativas dos outros. E, claro, a partir de algum momento, às minhas próprias.

Quando olho isso de maneira racional, percebo que esse tipo de experiência é de uma maldade sem tamanho com muitas de nós no Brasil. Acredito que sejam raras as pessoas que nunca viveram tais situações e mais raros, entre nós todos, os que nunca fizeram algum comentário ou crítica sobre o corpo de outras pessoas.

Assim como recebi vários, fiz incontáveis comentários sobre corpos de amigos, amigas, parentes, colegas, vizinhos, desconhecidos... Sim, é vergonhoso. Eu tenho muita vergonha disso e, há alguns poucos anos, procuro ao máximo não fazer comentários sobre o corpo dos outros. Não é fácil, pois está muito impregnado em nossa cultura. É uma luta diária.

Mais difícil que essa, é a batalha diária para evitar pensamentos críticos em relação ao meu próprio corpo. Corpos que são saudáveis, bonitos a sua maneira, que fazem mil coisas incríveis ao mesmo tempo – como manter-se vivo, por exemplo.

Quando vejo amigas mães se esforçando para fortalecer a autoestima de suas meninas, fico feliz. Tomara que essas crianças consigam crescer gostando de seus corpos maravilhosos do que jeito que eles são. Era o que queria ter vivido.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Neve, de novo

Neva de novo. Hoje mais forte do que na última sexta-feira. Um funcionário até já usou o carrinho para tirar a neve da calcada. Alguém em explicou que se alguma pessoa cai por causa da neve, o responsável pelos custos caso ela se machuque é o dono do condomínio, do instituto, do terreno etc. Sei lá se é assim mesmo, mas noto que os caminhos sao sempre mantidos limpos na frente de supermercados, lojas e prédios.

Depois de praticamente três semanas fora de casa, é tao bom estar de volta. Eu gosto do meu apartamento novo, mesmo que ainda nao esteja tudo arrumadinho como eu gostaria. Ainda falta um armário para o banheiro, um pufe para a sala e tapetes. Depois, acho que comecarei a colocar quadros e outros enfeites. Por ora, está tudo fechado de qualquer forma. Nem dá para ir passear em lojas de decoracao. 

Quinta-feira passada fiz um bolo que ficou horrível!!! Dá uma pena o desperdício dos ingredientes, mas nao teve jeito. O coitado do bolo teve que ir para o lixo. No fim de semana, comprei chocolate em pó da Lindt. Caro! Agora nao dá para dar errado. 

Estou ansiosa para programar uma próxima viagem. Parece que me falta alguma coisa quando nao tenho uma viagem programada, mesmo que seja uma curtinha. Bom, temos planos para nossos passeios de bike na primavera. Bom, a primavera ainda está tao longe. Hoje estava me lembrando que já vi neve em abril (em 2017 e 2018). No ano passado praticamente nao teve neve. Aqui no instituto nao nevou nem uma vez. No bairro em que eu morava, uma. 

Queria planejar uma viagem também ao Brasil, mas está difícil. Tomara que logo sejamos vacinados. Quanto mais vacinas forem autorizadas, acho que mais rápido andaremos na fila. Assim espero, pelo menos.

Li que Sex and the city terá uma nova temporada. Sem a Samantha! Será apenas and the city, sinceramente. De qualquer forma, já sei desde agora que irei assistir. Como elas fizeram parte da minha vida em 2004. Lembro que na época um relacionamento chegou ao fim e fiquei feliz (uma parte, pelo menos), pois teria mais tempo para me dedicar à série. Eu demorei a comecar a ver. Em 2004, vi todas as temporadas disponíveis.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Neve

A neve cai mansamenente desde muito cedo. Aos poucos, o gramado vai ficando branco. Eu gosto de chuva, mas a neve é mais suave.

Hoje está uma calmaria no instituto. Na biblioteca, acredita que estejamos apenas em quatro. Há o seguranca na portaria. Pesquisadores, confesso, nao vi nem um. 

Acho que o ano comecará mesmo na próxima segunda-feira.

Eu até tinha pensado em ficar de férias até lá, mas nao quis gastar os dias que podem fazer falta quando eu puder ir ao Brasil ou no verao. 

E também porque tive dias suficientes de folga. Foram 19 no total, dos quais fiquei todos fora de Heidelberg. Já estava com saudades do meu apartamentinho novo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Final de 2020

Começamos 2020 ajudando na mudança de amigos do T. em Frankfurt. Casa cheia de pessoas que se conheceram naquele fim de semana. Algo impensável neste final de ano. Praticamente todo mundo que conheço passou o Natal e a virada com a família, e muitas vezes só mesmo as pessoas mais próximas da família, em grupos bem menores do que 10, 15 pessoas. 

Passamos o Natal em Nierstein, depois de semanas pensando se iríamos mesmo. T. fez um teste antes de tomarmos a decisão final. Por enquanto, estamos todos saudáveis. A família é pequena. Ficamos com os pais durante os dias autorizados pelo governo, de 23 a 26 de dezembro. Depois um dos irmãos veio passar um dia conosco. 

Ontem, estávamos sozinhos. Fizemos Raclette e foi muito bom. Esperamos até a meia-noite para mais um brinde e fomos dormir felizes. 

Eu ainda tenho mais uns dias de folga, antes de começar o novo ano no trabalho. 

A pausa de duas semanas e meia está sendo muito boa. não fizemos nada específico. Simplesmente ficamos à toa, cozinhando comidas de que gostamos, lendo um pouco, recebendo a visita dos gatos dos vizinhos, fazendo algumas caminhadas. Até vimos um filme. A pausa ideal, sem estresse, sem expectativas. 

Eu sou grata por ter tido uma companhia tão agradável neste ano que passou. Estar sozinha não é exatamente um problema para mim, mas foi bom ter alguém pra planejar pequenas escapadas nesses meses de incertezas no mundo inteiro. 

Estou feliz por estar aqui na Alemanha. Se estivesse no Brasil, imagino que estaria ou muito alienada ou muito mal. Só de ler as notícias, tenho sensações e emoções muito ruins.

Desejo que todos tenhamos um ano melhor, mais leve. Ainda que eu pessoalmente não tenha realmente motivos para reclamar. Minha vida, apesar de tudo, sofreu apenas algumas pequenas alterações. 

Que sejamos mais empáticos em 2021. 

Diário do câncer de mama 6 - a primeira quimioterapia

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