terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Diário do câncer 17 - cirurgia

Acabada a quimioterapia, fiquei semanas à espera da cirurgia, que foi marcada para 7 de dezembro. Nesse meio tempo, tomei uma dose da imunoterapia, fui à ginecologista, fiz exame de sangue. No dia anterior à cirurgia, fui ao hospital para saber como tudo funcionaria. Fica-se sabendo dos horários, sobre os riscos, mais uma vez é falado sobre o tipo de cirurgia e recebe-se informações sobre a anestesia. Também são preenchidos formulários e formulários.

Às 7h30 do dia seguinte, eu já estava lá à espera da médica para um último exame. Depois da consulta com a médica que me operaria e com a diretora-geral da clínica, fui levada para o meu quarto, que dividi durante seis dias com uma outra paciente. Antes da cirurgia, foi marcado o local do tumor e do linfonodo sentinela com um arame fininho. Assim que isso tudo estava pronto, voltei para o quarto e esperei. 

Antes das 11h, fui levada para o centro cirúrgico. Lá recebi a anestesia e quando voltei, já estava operada. Confesso que eu amo anestesia. Nem me importo de fazer endoscopia, por exemplo, porque amo a sensação pós-exame. Desta vez, não foi diferente. Você volta, mas ainda está envolto naquela névoa do medicamento. Fui levada para o quarto lá pelas 14h30. O enfermeiro trouxe meu almoço todo feliz. Uma coxa de frango gigante. A fome a tornou ainda melhor. 

A minha companheira de quarto só foi operada de tarde, ficou praticamente o dia todo sem comer, pois depois da cirurgia sentiu muita dor. Eu não senti dor em momento algum e sou muito grata por isso. Tomei sempre os medicamentos que me deram, mas quando fui para casa, tomei apenas dois ibuprofenos no primeiro dia e nada mais.

No dia da cirurgia, optei por não receber visitas, pois estava bem cansada. Nos outros dias, T. e minha mãe sempre apareciam. Eu só podia receber uma visita por dia no quarto. Como eu estava bem, sempre os encontrava uma sala de espera, onde não era proibido mais de uma pessoa. No penúltimo dia de internação, uma amiga brasileira que estava em Heidelberg também foi me ver, para minha felicidade.

Nos primeiros dias, eu tinha dois drenos: um da mama e outro da axila/gânglios. O da mama foi retirado já no terceiro dia. O outro, apenas no dia da alta, do dia 12. 

A minha operação foi para retirar a parte em que estava localizado o tumor. Felizmente, não uma mastectomia. Se há essa possibilidade, os médicos sempre preferem tirar apenas o que for necessário. Retiraram menos de 2cm, mas 17 linfonodos, soube hoje. Foi uma cirurgia relativamente pequena.

A carta com o resultado do exame patológico chegou hoje. Nos últimos ultrassons que eu havia feito, os médicos sempre viam ainda algo na região onde estava o tumor. O patologista atestou que se tratava de material "morto" e não mais células cancerígenas. Também não foram mais encontrados traços de câncer nos linfonodos. Retiraram 17 e, felizmente, estavam todos sem câncer. Olhando agora, dá uma pena terem retirado tantos, pois isso implica em alguns probleminhas talvez no futuro do meu braço, mas era o que tinha que ser feito na hora. 

Eu fiquei aliviada quando li a carta. 

Ainda terei radioterapia pela frente e nove sessões de imunoterapia, mas essa era a parte que mais me preocupava. Por hoje, vou me sentir muito feliz e agradecida. 

Diário do câncer 16 - fim da quimio, covid, viagens

 A quimioterapia chegou ao fim no dia 31 de outubro de 2022. No mesmo dia, fizemos uma pequena viagem para descansar a cabeça e sair da rotina. Passamos duas noites em Nördlingen, uma cidade ainda cercada por muros e que fica em um lugar atingido por um meteorito há mais de 15 milhões de anos. Um casal de amigos nos encontrou lá e foram dois dias bem felizes e em boa companhia. 

De lá, seguimos mais para o sul, para nosso vagão localizado entre Reutlingen e Passau. Foi a nossa primeira experiência desse tipo. Já havíamos ficado numa minicasa, mas em um vagão, tipo aqueles de circo, foi a primeira vez. O lugar era legal e o vagão, bonito, mas como não estava claro se teríamos água quente e calefação, o primeiro dia foi meio tenso. Depois que ligaram a energia elétrica, ficamos mais relaxados. Painéis solares e um fogão são, a princípio, os responsáveis pela energia, mas como estava nublado e a lareira não esquentou tanto quanto deveria, nada foi como o esperado. De qualquer forma, passeamos bastante pela região e tivemos dias felizes.

Eu já estava gripada fazia uma semana e meia quando viajamos e minha situação. Quando voltamos, eu estava um pouco melhor, mas no dia seguinte, os sintomas começaram novamente com tudo. Estranho, pensei. No segundo dia em casa, tive febre, algo que não tive nunca durante a quimio e nem sei quando foi a última vez na vida. Liguei para o médico, que recomendou repouso, chá e nada mais... 

No fim de semana seguinte, notei que estava novamente sem paladar. Só aí resolvi fazer um teste de covid. Eu já estava há quase três semanas doente e não mudou praticamente nada o fato de estar com covid. Eu só fiquei meio triste, porque achei que passaria ilesa. Depois de ter feito o teste, comecei a melhorar. O ruim foi que tive que adiar os compromissos médicos que tinha. Felizmente, a doença não foi pior que o resfriado que já me acompanhava. O paladar foi voltando devagarinho nas semanas seguintes.

Pequenos comentários

No curso de italiano, de vez em quando, escutamos algumas músicas. Uma delas foi “L'isola che non c'è”, de Edoardo Bennato, música q...