segunda-feira, 18 de maio de 2020

Anotações da pandemia 3


 Heilbronn

A partir de hoje, 18 de maio, restaurantes, bares e, viva!, Biergärten estarão novamente abertos no estado de Baden-Württemberg. Desde o começo do mês de maio, lojas de todos os tamanhos foram autorizadas a reabrir as portas. Ao caminhar pelas ruas, percebe-se uma sensação de quase normalidade, quebrada aqui e ali por pessoas com máscaras, cartazes recomendando a distância de dois metros de outros consumidores e, em alguns casos, filas nas portas dos estabelecimentos, que agora limitam o número de clientes dentro das lojas.

Nesta semana, teremos mais um feriadão, mas apesar do afrouxamento do distanciamento social ainda não é possível programar uma pequena viagem. Hotéis permanecerão fechados até dia 24, o que é um pouco frustrante. Ao mesmo tempo, como afirmou recentemente a chanceler Angela Merkel, melhor ir devagar do que precisar retroceder neste ganho de mais liberdade. O número de casos ativos no país é relativamente baixo no momento, menos de 20 mil, mas para o cenário mudar, não precisa muito esforço. Os municípios estão atentos ao número de contaminados por semana, para avaliar as decisões tomadas até agora.

Aos poucos, os serviços vao sendo restabelecidos. Apesar de os horários de trens ainda não estarem totalmente normalizados, os ônibus voltaram a funcionar normalmente neste mês - em parte de março e em abril, algumas linhas foram desativadas em Heidelberg, por exemplo. Durante o período mais severo do distanciamento, estava proibido ocupar os gramados e parquinhos, assim como encontrar mais de uma pessoa por vez. Agora o tamanho dos grupos foi ampliado e já é possível aproveitar os fins de tarde ao ar livre à beira do rio Neckar. As crianças, ainda com algumas restrições, estão autorizadas a usar os parquinhos.

As escolas vêm sendo reabertas gradativamente nas últimas semanas. O número de aulas ainda será bastante limitado por um bom tempo, assim como o de alunos em sala. Estudantes alternam três dias de aula em uma semana na escola com uma semana totalmente em casa. Os professores precisam fazer um planejamento muito cuidadoso do que será ensinado nas aulas presenciais, para conseguir prover atividades suficientes para o período em que os alunos ficarão em casa. Não é fácil para ninguém. A coparticipação dos pais no monitoramento dos estudantes tem sido fundamental.

Creches e jardins de infância permanecem fechados, fazendo atendimento de emergência apenas a crianças cujos pais precisam obrigatoriamente trabalhar, atuando nas chamadas profissões relevantes para o sistema, como enfermeiras, policiais etc. Como a recomendação é evitar que as crianças encontrem-se com as pessoas idosas da família, as mães, especialmente as que trabalham fora, estão há pelo menos dois meses em uma rotina alucinante, que compreende dar conta do próprio trabalho de forma remota, auxiliar as crianças nas atividades escolares, cuidar de filhos pequenos e ainda realizar as atividades corriqueiras de casa.

A Alemanha parece ter enfrentado a situação até agora de maneira mais leve do que os países vizinhos. Um bloqueio total não foi necessário, pois o sistema de saúde nunca chegou ao limite. Outro aspecto que pode ter ajudado foi o engajamento da maior parte dos moradores. Apesar de os alemães prezarem pela liberdade e nem todos concordarem com as decisões dos governantes, no período mais severo da pandemia no país, as recomendações foram seguidas pela grande maioria.

Atualmente, porém, surgem manifestações contrárias ao distanciamento em diversas cidades com pessoas que defendem as mais alucinadas teorias da conspiração. Muitos acusam os governos de excesso, baseados somente no fato de que não terem conhecido ninguém que tenha sido infectado – o que, de certa forma, atesta que as medidas tomadas deram resultado positivo.

Um novo estado de normalidade estabelece-se aos poucos, ao mesmo tempo em que se espera que o pior já tenha mesmo ficado para trás.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Anotações da pandemia 2

Há dias em que é difícil acreditar na realidade.

Não apenas que o mundo está sendo dominado por um vírus, mas também que pessoas perdem seu tempo elaborando ou disseminando teorias da conspiração.

O que acontece no Brasil, então, parece uma piada de mau gosto. Como podemos ser tão patéticos?

***

Descobri dia desses que gosto de pelo menos um chocolate da Lindt. Resolvi entrar numa loja para comprar uma cobertura de bolo e como havia coelhos de páscoa em promoção, arrisquei comprar um. Decisão nada boa, pois agora vi que gosto quando é chocolate puro. Comprei um outro no supermercado esses dias. Por sorte esses restos de chocolates de páscoa estão já no fim em todos os lugares.

Tenho cozinhado bem mais em casa nos últimos tempos, e não apenas pelo fato de os restaurantes estarem fechados. Talvez tenha ajudado uma decisão que T. e eu tomamos ainda em fevereiro, de cozinhamos pelo menos uma vez aos fins de semana. Em média, cozinhamos duas vezes, o que pessoalmente acho uma maravilha. Saber exatamente o que estamos comendo é um alento. Claro que sentimos falta dos restaurantes que adoramos visitar. Eu mesma estou louca para poder ir a um Biergarten. E para comer sushi! (Tem no supermercado, mas nao é a mesma coisa)

Nesta semana comprei o novo livro da Marian Keyes. Se nos primeiros, as personagens era em sua grande maioria mulheres de 30 anos, solteiras, desencantadas com relacionamentos, que bebiam bastante e viviam fazendo coisas com os amigos, agora as protagonistas estão na casa dos 40 para 50 anos, já têm filhos, problemas com relacionamentos, continuam bebendo demais e dividindo as frustrações e alegrias com os amigos. Ano passado tive essa impressão com “The break” e “Grow ups” começou um pouco assim. Vamos ver como evolui.

Até agora ainda ano tive vontade de assistir a nenhuma “live”. Será que estou perdendo alguma coisa? Apesar de o mundo estar desabando lá fora, estou vivendo um período bem feliz da minha vida. Estou onde quero, tenho um trabalho que amo e, como bônus, ao meu lado uma pessoa que vale a pena. Resta-me apenas agradecer.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Anotações da pandemia

Nunca imaginei viver uma pandemia.

Nunca fui fã de filmes de catástrofe, talvez por isso não consiga lembrar qual foi a última vez em que vi algum. Agora é que não verei mesmo.

Antes das férias, comprei uma jarra com filtro da brita. Mostra-se a cada dia ter sido uma excelente compra. Mesmo que os filtros sejam caros, tenho bebido mais água ao longo do dia. Ao mesmo tempo, ter a nova jarra à disposição extinguiu as compras de garrafas plásticas de água que fazia de duas a três vezes por semana. Evita a ida ao supermercado, o contato com outras pessoas, ter um objeto “sujo” no ambiente de trabalho e aos poucos vai compensando o investimento na jarra.

Desde que voltei ao trabalho, tenho vindo de bicicleta. Na semana passada, fui obrigada a pegar o ônibus porque estava chovendo, mas agora que há promessa de tempo bom, voltei a pedalar até o trabalho. Isso me causa uma sensação muito boa. E por vários motivos: evitar contato com outras pessoas, permitir um pouco de exercício (são 14km no total ao dia), proporcionar a sensação de liberdade e a alegria por usar bastante a bicicleta nova.

Hoje foi meu primeiro dia usando o capacete novo. Ainda não estou muito segura de que gostei.

A ida à médica não foi muito feliz hoje de manha antes do trabalho. Para completar o dia levemente desanimado, o senhor S. se aposentou. Hoje ele esteve aqui para se despedir. É duro não poder nem dar um abraço, o que acho que ele até gostou. :-) Eu vou sentir muito a sua falta. Quase chorei, devo dizer, mas me controlei. Acho que ele, no seu jeito turrão, gostou do cartãozinho e do pequeno presente.

Ontem comprei 20 cestas básicas para serem distribuídas num bairro de Florianópolis. Nessa bolha em que vivo, impressiona-me muito o quanto custa um apanhado de produtos que servirão para alimentar uma família por pelo menos uma semana. O valor de uma cesta dessas gastei apenas por respirar em um restaurante da Zona Sul do Rio de Janeiro nas últimas férias. A amiga que está organizando acaba complementando as doações, para poder oferecer um pequeno “luxo”: 1kg de café. Nessas horas, só consigo ter duas reações: sinto-me ainda mais agradecida por todos meus privilégios que nem fiz tanto para merecer e sinto uma tristeza enorme por este mundo ser tão desigual.

Temos uma viagem planejada para junho. Se poderemos fazer, ainda não é claro. É aqui dentro da Alemanha, mas realmente não sei se já é o momento. Apesar de fazermos a todo vim de semana pequenas viagens, de bicicleta ou indo um para a cidade do outro

Nao poder planejar viagens é algo que me deixa também desanimada.

Ontem recebi um vale para recomprar ingressos para o teatro quando a situacao melhorar. Eu estava tao animada para ver uma peca nas ruínas do castelo... Tomara que no ano que vem dê.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Viagem de férias 4

A viagem de volta à Alemanha foi mais tranquila do que imaginamos. Foi chocante ver o Charles de Gaule com praticamente tudo fechado e pouca movimentacao.

A nossa troca de aviao se deu de forma rápida, o tempo de conexao era curto. Para entrar no aviao, procurei algum documento que mostrasse que moro na Alemanha. Acabou servindo a carteira do plano de saúde. Para passar pela imigracao - algo que já estava desacostumada desde que tenho um passaporte europeu - foi preciso mais. Alemaes podiam passar pelas máquinas, mas outros europeus precisavam ir conversar com os guardas da imigracao. T. foi comigo. Depois de o guarda perguntar por vários documentos que nao tenho ou nao tinha ali na hora, apresentei um e-mail do meu locador e acabou servindo. Já estava pensando para onde iria, caso ele dissesse que nao poderia entrar...

De Frankfurt seguimos direto para Baden-Baden. Evitei passar em casa primeiro, pois já estava achando que estávamos nos expondo demais.

Resolvemos nao antecipar o fim das férias e tivemos mais uma semana e meia juntos. Fizemos tanta coisa! E foi tao bom. O apartamento do T. fica ao lado da floresta e isso facilitou muito fazer caminhadas e trilhas sem ter contato com outras pessoas. Conheci vários pontos turísticos, que em outro momento estariam bem cheios.

Foi como se estivéssemos em um mundo paralelo. A ficha ainda nao tinha caído, confesso que somente agora, comeco de maio, está finalmente caindo. Como logo depois voltei normalmente ao trabalho, até pouco tempo ainda nao estava achando a vida tao diferente - dado que nao sou consumista e gosto de ficar "isolada".

Diário do câncer de mama 6 - a primeira quimioterapia

  14.06.2022 Primeira quimioterapia, dia 1 Eu estava bem nervosa naquele dia, acordei supercedo. Comi meio Bretzel. Estava com medo de com...